sábado, 1 de agosto de 2009

Coraline

Eu tenho visto poucos filmes, mas tenho tido em geral sorte com os que eu ando assistindo. Hoje assisti Coraline, filme baseado em um livro do Neil Gaiman. Isso me faz pensar que eu provavelmente deveria tentar ler os livros dele, porque eu jah gostei muito de outro filme tambem baseado em um dos seus livros: Stardust. Mas voltando a Coraline, tudo eh impressiontemente bem orquestrado - a simetria (ou assimetria) das diversas partese o modo como os diversos elementos sao elegantemente combinados me lembra as fabulas antigas. Um livro que gosto muito eh o livro de fabulas compiladas pelo Italo Calvino, chamado Fabulas Italianas:

As fabulas tem elementos comuns que conseguem criar uma atmosfera magica e dar um ritmo interessante a historia. Por exemplo a repeticao de elementos: "entao voce deve passar por tres bruxas, se elas estiverem de olhos fechados, espere, porque elas estao vigiando. Se estiverem de olhos abertos, passe, pois elas estao dormindo. E entao voce vai encontrar tres leoes, se eles...". O mesmo tipo de repeticao de elementos acontece em Coraline, seja por elementos como botoes e esferas ou por mesmas cenas re-contadas em varios contextos: realidade, sonho e pesadelo.

Taughannock Falls de bicicleta


A uns dois meses eu comprei uma bicicleta aqui em Ithaca. O verao aqui eh otimo: o tempo eh excelente e a regiao eh cheia de parques nacionais, vinicolar, cachoeiras e lagos. Eu pedalado quase todo dia pra faculdade. A cidade aqui eh cheia de sobes-e-desces, o que torna isso um bom exercicio. Mas tenho feito poucas rides longas. Logo que eu comprei a bicicleta eu pedalei ateh o aeroporto, ateh o laboratorio de ornitologia e hoje eu fiz a primeira ride longa: ateh o Taughannock Park, que eh um state park a uns 18 km de Ithaca.

Eh interessante como a paisagem de NY state muda abruptamente em alguns lugares. O campus de Cornell e arredores eh uma area bem sofisticada - cheia de otimos restaurantes, principalmente restaurantes etnicos. Eh uma area bem internacional: eh muito facil ouvir todo tipo de linguas alem de ingles sendo falada (ok, principalmente essa outra lingua eh chines ou coreano, mas mesmo assim). Indo um pouco mais pro downtown, a imagem muda para algo que eu imagino ser mais proximo de uma cidade americana media: dinners tipicos, fast-foods, casas enfeitadas para o 4 de julho e pessoas com jeito e penteados de atores de filmes da decada de 80. Hoje, margeando o Lago Cayuga de bicileta eu vi uma outra cara da regiao - uma area com ares meio nauticos, uma serie de barcos parados no cais, restaurantes de frutos do mar, casas enfeitadas com pequenos farois e ancoras e placas como "Ben's Harbour".

O Taughannock Park e suas respectivas Falls foram bem legais e valeram bastante a pena. Fiquei agora com vontade de fazer a volta em torno do lago, mas acho que essa ainda vai me exigir mais preparacao e algumas rides intermediarias.


domingo, 26 de julho de 2009

Clusterizando meus amigos

Ontem eu fiz um experimento com alguns resultados interessantes: peguei uma lista de todos os meus amigos do Orkut e os amigos deles. Alem dos nomes, sei quem eh amigo de quem. Meus amigos do IME estao conectados nos meus amigos do IME, e meus amigos do segundo grau estao conectados nos meus amigos do segundo grau. Entao olhando, deveria ser facil perceber os clusters de amigos. Mas como fazer isso automaticamente? Nao eh uma tarefa tao trivial dado que tenho amigos da faculdade que conhecem meus amigos da escola e vice versa. Mas existem algumas arestas cruzando essas comunidades. Uma solucao que vi recentemente foi usar metodos espectrais: de forma geral voce calcula os autovalores da matriz de adjacencias e plota os amigos no plano de acordo com os coeficientes dos autovetores. Eu escrevi um blog post mais tecnico sobre isso no meu outro blog, explicando um pouco mais a intuicao por tras de metodos espectrais. O resultado foi o seguinte:

Depois que o grafico jah estava montado, eu olhei quem era cada vertice e colori da seguinte maneira: azul os meus amigos da faculdade, verde os meus amigos da escola, amarelo as pessoas da minha familia e vermelho os demais q nao se encaixavam em nenhuma das categorias anteriores (e as pessoas que usam caracteres esotericos no seu nome do Orkut que eu nao consegui parsear). O algoritmo conseguiu claramente separar os meus amigos da faculdade dos meu amigos da escola e conseguiu tambem colocar as pessoas da minha familia mais ou menos proximas (e em nenhum momento o algoritmo usou as cores, elas soh foram fornecidas depois). E tambem mostrar que elas estao mais conectadas aos meus amigos da escola do que os da faculdade.

Uma imagem maior e com os nomes nos vertices estah aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Novo Blog

Eu comecei um outro blog - mais tecnico e em ingles - junto com meu amigo Hussam, aqui de Cornell. O blog eh BigRedBits, e a gente pretende postar lah coisas interessantes de computacao, puzzles matematicos e coisas desse tipo. Eu pretendo continuar mantendo esse aqui (em portugues e sobre coisas mais frivolas). Mas fica aih o link pra aqueles q acham legais os meus posts mais geeks.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Miscelânia mais ou menos cultural

Só pra variar vou escrever sobre algo não muito técnico. Depois do fim do semestre eu fiquei um tempo de bobeira lá em Ithaca e depois vim aqui pro Rio. O tempo de bobeira em Ithaca, mais todo o tempo perdido nos aeroportos fizeram com que eu tivesse tempo de colocar em dia (ok, colocar em dia é muita bondade) a leitura, filmes e seriados. Acho que um bom post de férias seria falar sobre algumas coisas legais que andei lendo e vendo.


Pra começar terminei hoje o ótimo romance Relato de um Certo Oriente de Milton Hatoum. Gostei bastante dele o que não foi muita surpresa, pois já tinha gostado muito de Dois Irmão do mesmo autor. Sempre gostei de romances contando grande histórias familiares e de histórias que se passam em lugares exóticos. O que é exótico aqui não é Manaus ou o Líbano mas essa mistura interessante que define os personagens. O modo de contar do "Relato de um Certo Oriente" é bem interessante: cada capítulo é a narrativa pessoal de um personagem diferente (e é complicado, mas também divertido, saber quem está narrando em cada momento). E isso traz um tom meio misterioso (diáfano?) - funciona como um jogo de memória, onde partes da história são ocultas de um ou outro narrador e você só consegue reconstruir (ou não) as coisas a partir do todo. É como ouvir histórias dos seus parentes mais velhos.

Achei que foi uma ótima escolha para ler. O problema de ler pouco literatura (como eu leio hoje em dia, acho q uns 2 ou 3 livros não-técnicos por semestre no máximo) é você acabar escolhendo coisas que você acha que vai gostar e não explorar coisas bem diferentes. Mas volta e meia ainda me surpreendo: na viagem que eu fiz pro Brasil em dezembro do ano passado eu comprei um romando policial no aeroporto do qual eu lembrava vagamente de uma critica do NYT: The Girl with the Dragon Tatoo. Romances policiais são excelentes pra se ler no avião, mas confesso que eu sou meio chato pra romances policiais. Quando eu era criança/adolescente eu devorei toda a coleção Sherlock Holmes e Agatha Christie. O que me deixou por algum tempo meio enfastiado de policiais e fez com que eu achasse a maioria meio chato logo depois disso. Até reler esses antigos não me traz a mesma sensação. Mas o "The Girl..." conseguiu me deixar surpreso. Ele tornou minhas várias horas na classe econômica da Delta incrivelmente agradáveis (e tensas). Ele é bem ágil e, como os americanos gostam de dizer, unputdownable.

Quanto às série eu consegui ver até o final a 5a temporada de LOST e comecei a ver alguns dos antigos episódios de Star Trek. Gostei muito do filme e agora entendo porque as pessoas mais velhas (ok, retiro os mais velhas e substituo por, as pessoas que viveram nas décadas de 60-80) gostam tanto dele. Eu gosto muito de The Big Bang Theory e vendo Star Trek eu peguei várias referências no sentido contrário, i.e., vi referências de StarTrek pra BBT, quando na verdade eram referências de BBT pra Star Trek. Estou me divertindo muito vendo a Série Original do Cap Kirk e do Mr Spock.


Vi também o filme baseado no romance do Dan Brown - Anjos e Demonios. Eu me surpreendi porque fui esperando muito pouco. A crítica estava ruim e o pouco que eu li dele não me agradou assim tanto, mas até que o filme foi bem divertido - as locações em Roma são ótimas. De fato é tudo um rocambole, mas até que diverte. Eu não sei quanto humor o Dan Brown tinha em mente quando escreveu esses livros, mas um romance bem irônico e interessante sobre essas lendas místicas medievais, sociedades secretas, e congeneres é o Pendulo de Foucault do Umberto Eco. Em certo sentido, os romances do Dan Brown são versões mais light, vulgares e com menos ironia desse (mas ao mesmo tempo mais agéis e fáceis de ler). Eu nunca consegui chegar ao fim do "Pendulo..." mas ele instigou minha curiosidade de certa forma, o que me levou a perder certo tempo na Wikipedia lendo sobre templários, rosa-cruzes, e outros artigos do gênero. Pelo menos me foi útil quando eu visitei no início desse ano a Quinta da Regaleira em Sintra. Esses romances me lembram que é divertido pegar alguns fatos históricos e criar em cima fatos fantasiosos com um certo ar de mistério - me parece um exercício legal.

Terminando o post longo: sempre que eu volto ao Rio de Janeiro eu me surpreendo: acho a orla de Copacabana cada vez mais bonita, as manhãs na Lagoa cada vez mais agradáveis e o clima mais hospitaleiro.

sábado, 4 de abril de 2009

Façam suas apostas

Eu tenho me interessado muito por Teoria dos Jogos, principalmente pela sua relacao com Algoritmos, que eh um campo novo chamado Algorithmic Game Theory. Jogos estah cada vez um assunto mais quente: nao soh por que estah na moda no meio academico mas porque a industria estah explorando eles fortemente. Por exemplo, voce pode pensar na venda de keywords da Google (AdWords) como um jogo, mais especificamente um leilao - as famosas Sponsored Search Auctions.

Mas nao eh bem sobre isso que eu queria falar (como sempre). Eu fico lembrando de um dos contos das Cosmicomicas chamado "How much should we bet?" onde dois personagens ficavam apostando sobre o que ia acontecer desde a criacao do universo. "Eu aposto que vai ser formar uma atmosfera naquele planeta", "Eu aposto que vai haver um dinossauro!", "Eu aposto que os turcos vao tomar Constantinopla!" e assim por diante... E cada vez as coisas iam ficando mais complicadas e as apostas mais dificeis e arriscadas. Eh um ponto delicado afirmar que o mundo tem ficando mais incerto desde o Big Bang. Eu nao vou me arriscar a falar isso, mas eh sempre mais complicado saber se a Dilma Rousseff vai concorrer as proximas eleicoes do que imaginar que os a vida sairia do mar e iria se expandir pela terra ou que cairia um meteoro e acabaria com todos aqueles repteis gigantes.

Apostar sempre foi um negocio divertido, por isso a grande quantidade de negocios envolvendo apostas. Cassinos, jogo do bicho, loteria esportiva, ... a lista nao para por aih. Um dos jogos que mais tem-se falado ultimamente eh a Bolsa de Valores. Na pratica, voce vai lah e aposta seu dinheiro no sucesso ou no fracasso dessa ou daquela empresa. Eh um jogo engracado, porque o sucesso ou nao depende do jogo em si (diferente por exemplo da loteira, onde o numero 23 eh sorteado independente de um monte de pessoas apostarem nele ou nao - ou pelo menos deveria ser assim).

O interessante nesse jogo eh que o valor das acoes serve pra predizer de certa forma o quao bem uma empresa estah indo: se as pessoas estao dispostas a apostar nela, eh provavelmente porque elas tem alguma informacao (ou palpite) de que ela estah indo bem. Se voce nao entende nada de negocios (computadores nao entendem, por exemplo), voce ainda ainda fazer boas compras e vendas no mercado de acoes observando como as outras pessoas estao se comportando. A sacada eh usar esses mercados pra agregar informacao. Eu nao sei nada sobre a Enron, mas se as pessoas estao vendendo suas acoes, coisa boa nao pode ser.

Outro exemplo de mercados que agregam informacao sao as apostas em esportes, como o jah defundo Tradesports. Eu por exemplo nao sei nada sobre futebol, mas posso fazer boas previsoes sabendo o que as pessoas estao apostando. Naturalmente, uma opniao nao eh muita coisa (todo brasileiro eh tecnico de futebol, eu sei), mas se as pessoas estao dispostas a colocar seu dinheiro lah, a coisa muda um pouco de figura.

Porque nao generalizar essa ideia e tentar agregar informacao sobre coisas mais gerais: Eu assisti duas palestras recentmenete sobre Prediction Markets e me interessei bastante, nao sei quanto tempo eu vou ter no futuro pra me dedicar a olhar isso com mais calma, mas eh algo q a longo prazo eu quero olhar com mais calma. Prediction markets funcionam como o mercado de acoes mas vc aposta em eventos. Eh ao mesmo tempo algo em que vc pretende:

(1) fazer dinheiro (claro!)
(2) agregar conhecimento e beliefs (se vc estah colocando seu dinheiro lah, vc vai estar muito mais interessado em acertar as probabilidades dos eventos). O objetivo eh capturar algo como Wisdom of the Crowds e tb em analisar a Wisdom of the Fools.

Em resumo, eh como um mercado de apostas em esportes (na verdade, essa eh a origem), mas vc pode comprar "shares" de todo tipo de eventos, como "Democrats win 2012 elections", or "Outbreak of flu in Asia", ... Mesmo nao havendo um individuo que saiba a verdade, se espera que o conhecimento nesses ambientes venha da iteracao entre os participantes. Estah tendo um buzz bem grande em torno disso na academia e estao surgindo tecnicas interessantes que talvez possam ser aplicadas no mercado de acoes (que nao deixa de ser uma forma de prediction market). Uma referencia inicial (que eu imprimi mas ainda nao comecei a ler) eh o "Computation in a Distributed Information Market" de Feigenbaum, Fortnow, Pennock, and Sami. Alguns exemplos de Prediction Markets na pratica sao o Intrade e Newsfuture.

Falando desses jogos online com um amigo, descobri a existencia de um tal de Swoopo. Eh um jogo do tipo leilao tambem. Esse menos interessante do ponto de vista teorico mas incrivelmente interessante do ponto de vista de marketing por duas razoes: (1) dah a impressao ao usuario de ser um grande negocio e eh na verdade uma grande furada (e eh nao trivial perceber isso no inicio) e (2) nao eh nada diferente de um jogo de VideoPoker, Roleta online, ... mas parece totalmente diferente disso. Parece que voce tah comprando coisas (de um modo meio arriscado) e nao apostando. Sacada muito boa mas uma completa furada. Achei interessante de toda forma.


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Em tempo: ontem eu descobri que o Bob Metcalfe, o criador do protocolo Ethernet e portanto, um dos pais da internet, ia dae uma palestra em Cornell. A palestra foi algo do tipo: "blue is the new green" onde ele discutia solucoes energeticas para o planeta e comparava os avancos no setor de energia aos avancos na internet. De acordo com ele, ainda nem ao menos chegamos no equivalente aos PCs no setor energetico. Ainda estamos no mainframes da decada de 80 (producao centralizada escoando energia para os consumidores). A palestra abordou varias coisas - mais filosoficas do que praticas - mas sintetizou algumas coisas que eu jah percebia a tempo - como um certo desagrado por coisas como o Greenpeace e outras formas de ambientalismo barato. Li a algum tempo um post otimo sobre isso, mas vou deixar esse assunto pra outro dia.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mais coisas romanticas

Sempre achei que faltava tambem um protocolo pra os namorados se comunicarem antes de serem propriamente namorados. Algo como fazer a pergunta "nos devemos namorar?" eh complicado. Em geral o namoro ocorre quando os dois respondem sim a essa pergunta. Entao eh como se duas pessoas, cada uma tivesse um bit (0=nao, 1=sim) e isso fosse uma maneira de computar o operador AND desses bits. Digamos que Alice tem um bit x que diz se ela quer namorar Bob e Bob tem um bit y dizendo se ele quer namorar Alice. Eles querem saber (x AND y), mas suponha: se y = 1, Bob nao quer revelar isso a menos que Alice diga x = 1. Se Alice tem x = 0, Bob preferia manter o bit dele em segredo. O ideal eh que eles os estados (0,0), (0,1) e (1,0) fiquem indistinguiveis caso a resposta seja 0.

Se nos tivermos uma autoridade confiavel (digamos, um amigo que os dois confiam) podemos simplesmente dizer nossos bits pra ele e ele nos responder Sim ou Nao. Ok, assim eh facil. Mas e se nao tiver essa pessoa central, como criar um protocolo pra que nos dois calculemos (x AND y) sem revelar nossos bits um para o outro?

A resposta estah no exemplo da secao 1.2 desse pdf.