Jah estou a quase um mes em Jerusalem (יְרוּשָׁלַיִם) visitando o Center for the Study of Rationality. Acho que nao tem nenhuma outra cidade no mundo da qual haja mais para se falar do que essa. De acordo com a Wikipedia, ela jah foi destruida 2 vezes, cercada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada 44 vezes. Depois do antigo Reino de Israel (Casa de David), a cidade jah foi assiria, babilonia, macedonia, romana, bizantina, arabe, um reino catolico (quando os Cruzados tomaram Jerusalem por uns 200 anos), voltando a ser arabe, turco-otomana (por quase 500 anos), ateh virar colonia britanica depois da primeira guerra, e depois da formacao do moderno Estado de Israel ela estah dividida entre Israel e Palestina.
Nao eh a toa que a cidade sempre viveu na minha imaginacao - e na da maioria das pessoas - e era considerada o centro do mundo. Abaixo tem um mosaico que eu vi andando na Yafo Street:
que eh uma reproducao de "Die Welt als Kleeblatt" do teologo alemao Heinrich Bünting, que alias tem varios outros mapas interessantes, tais como esse, onde a Europa eh representada como uma rainha. Mas voltando as representacoes, Jerusalem tem varios mapas indicando sua natureza dual: ao mesmo tempo o palco da historia divina e eh o cenario de varias guerras e conflitos completamente humanos.
A cidade eh sagrada para as tres principais religioes do ocidente, e lah eh onde tudo comecou: em todos os sentidos. O monte do templo eh o local de onde o Universo se expandiu e de onde Deus tirou o po do qual fez Adao.
Foi no mesmo monte que Abrahao estava prestes sacrificar Isaac (e a pedra do sacrificio estah lah, dentro da mesquita na foto acima - Dome of the Rock). E nesse lugar Maome subiu as ceus na sua Jornada Noturna.
terça-feira, 26 de abril de 2011
sábado, 19 de março de 2011
Brigadeiro e doce de banana
Quando eu aprendo coisas simples fora da minha area, eu fico logo entusiasmado. Eu sei fazer brigadeiro a algum tempo, mas hoje fiz um experimento que levou ele a outro nivel, e acho que nada mais justo que relatar isso. Tudo comecou quando a um mes atras, Carol me ensinou a fazer doce de banana. Na verdade, o que ela me ensinou eh mais um framework do que uma receita. O mais surpreendente eh que voce nao precisa nada mais do que banana e acucar (se voce tiver bananas jah ficando meio pretas, eh melhor ainda). Eh a coisa mais simples do mundo:
A receita eh um framework porque nao existe nada sagrado sobre bananas nela. Por exemplo, voce pode fazer o mesmo com morangos e obter algo como uma geleia de morango (que em geral sao eh mais leve e menos doce que as geleias comerciais - embora voce possa fazer ela doce se assim voce quiser). Ao inves de adicionar agua, voce pode fazer um bule de cha do seu cha preferido (algo como Earl Grey, por exemplo) e adicionar ele a mistura ao inves de agua. No final, voce pode adicionar canela ou coco ralado, ... Ou entao, voce pode colocar um pouco de brandy, contreau ou whiskey. E por aih vai.
Nao que eu queira transformar cozinha em Engenharia de Software, mas outra excelente feature eh que ela funciona como um otimo componente para outras receitas (eu sou a favor de livros de receita orientados a objeto). O que eu testei (com bastante sucesso, se a modestia me permite) foi misturar o doce de banana acima a massa de brigadeiro. Isso tecnicamente nao precisa de muitas explicacoes - indo no Google voce encontra diversas receitas de brigadeiro. Entao eu poderia dizer, pegue uma delas e na hora de colocar chocolate, coloque metade do chocolate e uma quantidade de doce de banana. Mas nao vou simplesmente dizer isso, porque brigadeiro sendo facil, eh uma arte que deve ser levada a perfeicao. Eh como bolo de chocolate ou cafezinho. Qualquer lugar voce encontra e qualquer um sabe fazer. Mas fazer bem feito, eh outra historia. O mesmo acontece com filmes/historias romanticas - tem tantos por aih que eh dificil voce ver um que pareca diferente. Mas voltemos ao brigadeiro. Antes da receita alguns comentarios:
1. Manteiga: eh provavelmente o ingrediente mais importante e eh o que em geral decide entre o sucesso e o fracasso dos brigadeiros e das sobremesas em geral. Jah me explicaram que o segredo de qualquer boa sobremesa sao quantidades ridiculamente altas de manteiga. Se isso fosse um texto jornalistico, eu apontaria para uma pesquisa de Harvard sobre a satisfacao das pessoas com cookies em relacao a quantidade de manteiga que eles levam - e a surpreendente conclusao eh que ela soh aumenta com a manteiga, ateh o ponto que os cookies comecam a nao conseguir ficar mais solidos e derretem na mao das pessoas. A ideia principal eh dobrar a quantidade de manteiga das receitas convencionais (e absolutamente NUNCA usar margarina. soh manteiga sem sal)
A pessoa que me ensinou esse truque faz otimas sobremesas e tem a cara-de-pau de chegar nos lugares e dizer que o segredo eh colocar uma quantidade minima de manteiga. Mas piadas a parte, eu em geral revelo o segredo (como eu estou fazendo aqui no blog) e as pessoas dizem que nao eh saudavel. Concordo, mas quando eu faco, eh em geral porque vou receber mais visitas em casa - entao eu nao como sozinho - e eu nao faco sempre. Eu acho que usar muito manteiga em ocasioes especiais (ou uma/algumas vez por semana) eh mais que justificado. Fazemos isso em varios aspectos da vida: se podemos nos comportar diferente na nossa vida privada e em publico, ou agir diferente na familia e no trabalho, por que nao usar mais manteiga numas ocasioes e pouca em outras?
2. (Contra o) Granulado: Eu sou em geral contra o granulado (o colorido entao me dah calafrios). Acho que estraga as sobremesas, nao tem gosto de nada (em geral eh feito de chocolate ruim), nao tem uma textura interessante e nem eh bonito. Depois do meu rant, eu realmente prefiro que os brigadeiros no final sejam passados soh em acucar. Eu jah vi alternativas que parecem interessantes, como pedacinhos de castanha, pistache ou coco ralado. Mas nunca tentei nenhuma delas, sempre acabo usando soh acucar.
Bom, como eu faco brigadeiro eh da seguinte forma:
Btw, sempre aceito sugestao de sobremesas. E let me know se alguem aih tentar algo parecido seguindo/inspirado na discussao acima.
O q vc precisa:
x bananas, onde x eh qualquer inteiro positivo
agua, acucar, panela e fogao
Como fazer:
Corte as bananas em rodelas e coloque numa panela com um pouquinho de agua (o nivel da agua eh mais ou menos um dedo). Se as bananas nao estiverem maduras ou estiverem pouco doces ou voce preferir mais doce, coloque acucar tb. Eu recomendo uma colher para cada banana. Deixe cozinhando em fogo baixo e va mexendo. Para nao deixar queimar, quando a agua estiver secando, vc vai adicionando mais um pouco e vai cozinhando e mexendo (sempre em fogo baixo). Continue esse processo ateh ficar com a cor e a textura que voce quer - eu geralmente espero ele ficar mais amarronzado.
A receita eh um framework porque nao existe nada sagrado sobre bananas nela. Por exemplo, voce pode fazer o mesmo com morangos e obter algo como uma geleia de morango (que em geral sao eh mais leve e menos doce que as geleias comerciais - embora voce possa fazer ela doce se assim voce quiser). Ao inves de adicionar agua, voce pode fazer um bule de cha do seu cha preferido (algo como Earl Grey, por exemplo) e adicionar ele a mistura ao inves de agua. No final, voce pode adicionar canela ou coco ralado, ... Ou entao, voce pode colocar um pouco de brandy, contreau ou whiskey. E por aih vai.
Nao que eu queira transformar cozinha em Engenharia de Software, mas outra excelente feature eh que ela funciona como um otimo componente para outras receitas (eu sou a favor de livros de receita orientados a objeto). O que eu testei (com bastante sucesso, se a modestia me permite) foi misturar o doce de banana acima a massa de brigadeiro. Isso tecnicamente nao precisa de muitas explicacoes - indo no Google voce encontra diversas receitas de brigadeiro. Entao eu poderia dizer, pegue uma delas e na hora de colocar chocolate, coloque metade do chocolate e uma quantidade de doce de banana. Mas nao vou simplesmente dizer isso, porque brigadeiro sendo facil, eh uma arte que deve ser levada a perfeicao. Eh como bolo de chocolate ou cafezinho. Qualquer lugar voce encontra e qualquer um sabe fazer. Mas fazer bem feito, eh outra historia. O mesmo acontece com filmes/historias romanticas - tem tantos por aih que eh dificil voce ver um que pareca diferente. Mas voltemos ao brigadeiro. Antes da receita alguns comentarios:
1. Manteiga: eh provavelmente o ingrediente mais importante e eh o que em geral decide entre o sucesso e o fracasso dos brigadeiros e das sobremesas em geral. Jah me explicaram que o segredo de qualquer boa sobremesa sao quantidades ridiculamente altas de manteiga. Se isso fosse um texto jornalistico, eu apontaria para uma pesquisa de Harvard sobre a satisfacao das pessoas com cookies em relacao a quantidade de manteiga que eles levam - e a surpreendente conclusao eh que ela soh aumenta com a manteiga, ateh o ponto que os cookies comecam a nao conseguir ficar mais solidos e derretem na mao das pessoas. A ideia principal eh dobrar a quantidade de manteiga das receitas convencionais (e absolutamente NUNCA usar margarina. soh manteiga sem sal)
A pessoa que me ensinou esse truque faz otimas sobremesas e tem a cara-de-pau de chegar nos lugares e dizer que o segredo eh colocar uma quantidade minima de manteiga. Mas piadas a parte, eu em geral revelo o segredo (como eu estou fazendo aqui no blog) e as pessoas dizem que nao eh saudavel. Concordo, mas quando eu faco, eh em geral porque vou receber mais visitas em casa - entao eu nao como sozinho - e eu nao faco sempre. Eu acho que usar muito manteiga em ocasioes especiais (ou uma/algumas vez por semana) eh mais que justificado. Fazemos isso em varios aspectos da vida: se podemos nos comportar diferente na nossa vida privada e em publico, ou agir diferente na familia e no trabalho, por que nao usar mais manteiga numas ocasioes e pouca em outras?
2. (Contra o) Granulado: Eu sou em geral contra o granulado (o colorido entao me dah calafrios). Acho que estraga as sobremesas, nao tem gosto de nada (em geral eh feito de chocolate ruim), nao tem uma textura interessante e nem eh bonito. Depois do meu rant, eu realmente prefiro que os brigadeiros no final sejam passados soh em acucar. Eu jah vi alternativas que parecem interessantes, como pedacinhos de castanha, pistache ou coco ralado. Mas nunca tentei nenhuma delas, sempre acabo usando soh acucar.
Bom, como eu faco brigadeiro eh da seguinte forma:
Mistura numa panela: duas latas de Leite Moça (leite condensado), 50-60g de manteiga (basicamente veja o tamanho do pacote e corta de acordo - mas corta em varios pedacos e coloca na panela pra derreter mais rapido) e chocolate em po Aqui nao tem nenhuma regra, pode ser o que voce quiser e na quantidade que voce quiser. Nescau funciona. Qualquer marca moderadamente decente de chocolate funciona. Essa parte eh a menos importante. Voce regula a quantidade de acordo com quao denso de chocolate voce vai querer ele. Lembra que o leite condensado jah eh bem doce e tem um gosto bom por si so. Deixe o fogo baixo (eh ok deixar o fogo mais alto por alguns minutos enquanto ainda estah frio, mas depois abaixe) e IMPORTANTE: mexa sempre ateh ele desgrudar do fundo da panela. [Se vc quiser fazer algo diferente, nesse ponto voce pode adicionar mel, Maple Syrup, geleia de morango ou doce de banana - mas nao muito.] O truque eh pegar uma colher de pau e ir de um lado ao outro da panela (seguindo o diametro) e ver se jah desgrudou do fundo. Quando estiver
Terminada essa parte, coloque tudo num prato raso pra ir esfriando e depois eh soh enrolar. Em geral voce derrete um pouco de manteiga, passa na sua mao, faz uma bolinha de chocolate e passa no acucar. (Deve ser facil achar videos no YouTube explicando como se faz isso).
Btw, sempre aceito sugestao de sobremesas. E let me know se alguem aih tentar algo parecido seguindo/inspirado na discussao acima.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Kindle e Sao Bartolomeu
Eu recentemente comprei um Kindle DX e minhas razoes foram essencialmente aquelas do xkcd comic:
Ter acesso a Wikipedia de qualquer lugar do mundo eh tentador, fora que eu sempre achei ler pdfs na tela do meu computador desconfortavel, ainda que meu computador seja um tablet - e no Kindle isso ficou bem mais agradavel. Outro grande problema que sempre me dificultou ler classicos foi o typesetting horrivel das edicoes antigas (e das edicoes modernas baratas) e para alguns livros o fato de serem grandes demais. Tudo isso se resolve facilmente com o Kindle - ler Anna Karenina tem sido uma experiencia agradavel nele. Eh otimo que tanto o Projeto Gutenberg quanto o Google Books tenham varios livros jah em formato Kindle ou em pdf (com o otimo typesetting nativo do Kindle). Mas o que eu gostaria de falar mesmo eh sobre a internet 3G de graca no mundo todo que vem com o Kindle. Eu testei nos EUA logo que eu recebi e de fato funcionava muito bem - o que eh menos interessante, porque aqui eu tenho sempre um computador com internet por perto, um celular com internet que faz tethering (um Android Nexus One, do qual eu realmente gosto) - mas viajando em geralmente estou longe de ter essas coisas. Achar wifi nao eh tao facil em outros lugares como eh nos EUA (se bem que no Rio tem sido mais ou menos facil).
Bom, eu estava ansioso por testar a internet 3G do Kindle na Espanha e no Marrocos. Mesmo assim, eu sabia que seria uma mixed blessing: uma das vantagens de viajar eh desintoxicar do meu vicio de chegar email toda hora. Logo eu percebi que o quer achei que seria uma mixed blessing era uma complete blessing. Eu nao conseguia acessar o GMail pelo 3G na Espanha! Soh alguns sites pre-selecionados pelo Kindle, como Wikipedia, Wikitravel, Yelp, Weather Channel, Lonely Channel, ... eram possiveis. Ou seja, a distracao estava eliminada e a parte boa ainda estava lah.
No aeroporto, enquanto eu esperava pelas minhas malas, eu li um pouco sobre a Guerra Civil Espanhola, assim como eu li sobre a Primeira Crise Marroquina ou o Incidente de Tangier, que era um dos mais famosos eventos pre-primeira-guerra-mundial - no ferry de Tarifa para Tangier.
Mas a minha primeira experiencia interessante com ele foi na Catedral da Almudena - a bela igreja na frente do Palacio Real em Madrid. A catedral estava fechada, mas a cupula e o museu estavam abertos - e foi uma experiencia fascinante. A minha cultura artisitica e minha cultura religiosa deixam muito a desejar - e sempre acho que estou perdendo alguma coisa. Subindo para a cupula havia uma varanda com uma vista para o Palacio Real e quatro estatuas:
onde apareciam denovo os quatro santos com os quatro animais. O Kindle entra nesse ponto: eu consegui ler o artigo da Wikipedia The Evangelists na hora e entender a associacao dos santos com as quatro criaturas que carregam o trono de Deus (de acordo como Ezequiel e com o Livro do Apocalipse) ao mesmo tempo que representam diferentes caracteristicas dos livros (mais detalhes no artigo da Wikipedia). Se voce estah curioso, a associacao eh Sao Mateus (anjo), Sao Marcos (leao), Sao Lucas (boi), Sao Joao (aguia). Ok, uma forma facil de lah na Igreja ter descoberto quem era quem eh que as estatuas apareciam na mesma ordem dos livros - eu percebi depois de ler a Wikipedia e ver quem era quem, mas in restrospect era bem obvio e eu poderia ter tirado a associacao disso.
Bom, seguimos pelo museu da Almudena, com as varias vestes dos cardeais de Madrid, diversas cenas da Coroacao de Nossa Senhora, tapecarias de Adao e Eva no Paraiso, e assim por diante... O fim do museu dah na cupula da Catedral e essa eh a mais interessante, porque existem doze estatuas. Essa eh facil de matar quem sao: os doze apostolos - na verdade quase: nessas cenas em geral nao se representa Judas Iscariotis, e normalmente ele eh substituido por Sao Matias. Mas ok, a proxima brincadeira com o auxilio da Wikipedia era achar quem era quem. Sao Pedro costuma ser o mais facil, porque ele sempre eh representado segurando as chaves do ceu. Sao Mateus tambem eh facil, porque ele aparece segurando um livro - e ele eh o unico na intersecao dos santos evangelistas com os apostolos. Ok, isso eh mais ou menos verdade, eh discutido se o Sao Joao apostolo eh o mesmo Sao Joao evangelista, mas acho que a maioria das pessoas acha que a resposta eh nao. De toda forma, Sao Joao eh normalmente representado segurando um calice de vinho com uma serpente (ou um dragao pequenininho) dentro como por exemplo aqui. O calice vem de uma lenda onde Sao Joao teria recebido um calice de vinho envenenado, e apos abencoar ele, o veneno teria desparecido (ou teria virado uma serpente e saido do calice). Outro pessoa facil de reconhecer era Sao Tome, que estava numa posicao tentando tocar as chagas de Cristo (outro detalhe interessante eh que Thomas significava gemeo - twin - porque Sao Tome se parecia muito com Cristo - embora isso nao seja lah muito representado nas obras de arte). Mas a que mais me surpreendeu foi esse:
Uma das estatuas aparece segurando uma pele humana e segurando uma faca. Se trata de Sao Bartolomeu, um dos apostolos dos quais sabemos muito pouco - pouco se fala dele nos evangelhos, e de fato ele tem nomes diferentes nos seguintes evangelhos, e de acordo com a tradicao, ele teria levado o evangelho a India, ou talvez a Etiopia... Mas o que representa a estatua ? Essa foi minha segunda feliz incursao pela Wikipedia: a representacao de Sao Bartolomeu segurando uma faca e uma pele humana nao eh incomum. Por exemplo, ela acontece tambem no Juizo Final de Michelangelo. E se trata da propria pele do santo. Uma explicacao eh a lenda do seu martirio na Turquia (ou talvez na Armenia), onde teriam cortado sua pele e decepado sua cabeca. Outra explicacao eh que seu corpo, que era mantido em Lipari na Sicilia, teria os ossos misteriosamente desaparecidos restando soh sua pele e sua cabeca.
De toda forma, uma brincadeira interessante visitando museus era tentar reconhecer os santos antes de ler o nome da obra, o que era bastante interessante. Outra vez que com sucesso aprendi algo com o Kindle foi visitando o Convento de la Concepcion, me Toledo, que aloja um El Greco famoso sobre a imaculada conceicao de Nossa Senhora. Quando entrei lah me lembrava vagamente de alguem ter me dito que contrario ao que a maioria das pessoas acreditava, a Imaculada Conceicao nao tinha a ver com a concepcao de Jesus mas com o fato do Espirito Santo ter protegido Nossa Senhora do pecado original. A conexao 3G mundial do Kindle novamente esclareceu tudo. De fato - como era indicado por Jesus nao aparecer no painel do El Greco - de fato a Imaculada Conceicao se refere a Nossa Senhora ter nascido sem pecado. O artigo da Wikipedia que discute os detalhes eh esse aqui.
Minha proxima duvida aconteceu no Marocos. Eu procurei mas nao consegui encontrar nada que me explicasse o que sao as quatro esferas no topo da Koutoubia:
Eu lembro de ter ouvido uma explicacao sobre isso em Granada, mas ela me escapa no momento. E lembro de ter visto os mesmos simbolos e varios lugares do sul da Espanha, como essa mesquita em Essaouira e na Giralda em Sevilla, alem de uma igreja em Granada.
Ter acesso a Wikipedia de qualquer lugar do mundo eh tentador, fora que eu sempre achei ler pdfs na tela do meu computador desconfortavel, ainda que meu computador seja um tablet - e no Kindle isso ficou bem mais agradavel. Outro grande problema que sempre me dificultou ler classicos foi o typesetting horrivel das edicoes antigas (e das edicoes modernas baratas) e para alguns livros o fato de serem grandes demais. Tudo isso se resolve facilmente com o Kindle - ler Anna Karenina tem sido uma experiencia agradavel nele. Eh otimo que tanto o Projeto Gutenberg quanto o Google Books tenham varios livros jah em formato Kindle ou em pdf (com o otimo typesetting nativo do Kindle). Mas o que eu gostaria de falar mesmo eh sobre a internet 3G de graca no mundo todo que vem com o Kindle. Eu testei nos EUA logo que eu recebi e de fato funcionava muito bem - o que eh menos interessante, porque aqui eu tenho sempre um computador com internet por perto, um celular com internet que faz tethering (um Android Nexus One, do qual eu realmente gosto) - mas viajando em geralmente estou longe de ter essas coisas. Achar wifi nao eh tao facil em outros lugares como eh nos EUA (se bem que no Rio tem sido mais ou menos facil).
Bom, eu estava ansioso por testar a internet 3G do Kindle na Espanha e no Marrocos. Mesmo assim, eu sabia que seria uma mixed blessing: uma das vantagens de viajar eh desintoxicar do meu vicio de chegar email toda hora. Logo eu percebi que o quer achei que seria uma mixed blessing era uma complete blessing. Eu nao conseguia acessar o GMail pelo 3G na Espanha! Soh alguns sites pre-selecionados pelo Kindle, como Wikipedia, Wikitravel, Yelp, Weather Channel, Lonely Channel, ... eram possiveis. Ou seja, a distracao estava eliminada e a parte boa ainda estava lah.
No aeroporto, enquanto eu esperava pelas minhas malas, eu li um pouco sobre a Guerra Civil Espanhola, assim como eu li sobre a Primeira Crise Marroquina ou o Incidente de Tangier, que era um dos mais famosos eventos pre-primeira-guerra-mundial - no ferry de Tarifa para Tangier.
Mas a minha primeira experiencia interessante com ele foi na Catedral da Almudena - a bela igreja na frente do Palacio Real em Madrid. A catedral estava fechada, mas a cupula e o museu estavam abertos - e foi uma experiencia fascinante. A minha cultura artisitica e minha cultura religiosa deixam muito a desejar - e sempre acho que estou perdendo alguma coisa. Subindo para a cupula havia uma varanda com uma vista para o Palacio Real e quatro estatuas:
O fato de estarem numa igreja sugerem que sejam santos e sendo quatro e segurando um livro cada um sugere que sejam os quatro santos evangelistas: Sao Mateus, Sao Marcos, Sao Lucas e Sao Joao. Mas qual eh qual? Outro detalhe interessante eh que cada um dos santos tem um animal com eles: uma aguia, um boi, um leao e um anjo. Isso me lembrou um quadro "Os quatro evangelistas" de Rubens que eu vi uma vez no Museu de Arte de Princeton:
Bom, seguimos pelo museu da Almudena, com as varias vestes dos cardeais de Madrid, diversas cenas da Coroacao de Nossa Senhora, tapecarias de Adao e Eva no Paraiso, e assim por diante... O fim do museu dah na cupula da Catedral e essa eh a mais interessante, porque existem doze estatuas. Essa eh facil de matar quem sao: os doze apostolos - na verdade quase: nessas cenas em geral nao se representa Judas Iscariotis, e normalmente ele eh substituido por Sao Matias. Mas ok, a proxima brincadeira com o auxilio da Wikipedia era achar quem era quem. Sao Pedro costuma ser o mais facil, porque ele sempre eh representado segurando as chaves do ceu. Sao Mateus tambem eh facil, porque ele aparece segurando um livro - e ele eh o unico na intersecao dos santos evangelistas com os apostolos. Ok, isso eh mais ou menos verdade, eh discutido se o Sao Joao apostolo eh o mesmo Sao Joao evangelista, mas acho que a maioria das pessoas acha que a resposta eh nao. De toda forma, Sao Joao eh normalmente representado segurando um calice de vinho com uma serpente (ou um dragao pequenininho) dentro como por exemplo aqui. O calice vem de uma lenda onde Sao Joao teria recebido um calice de vinho envenenado, e apos abencoar ele, o veneno teria desparecido (ou teria virado uma serpente e saido do calice). Outro pessoa facil de reconhecer era Sao Tome, que estava numa posicao tentando tocar as chagas de Cristo (outro detalhe interessante eh que Thomas significava gemeo - twin - porque Sao Tome se parecia muito com Cristo - embora isso nao seja lah muito representado nas obras de arte). Mas a que mais me surpreendeu foi esse:
Uma das estatuas aparece segurando uma pele humana e segurando uma faca. Se trata de Sao Bartolomeu, um dos apostolos dos quais sabemos muito pouco - pouco se fala dele nos evangelhos, e de fato ele tem nomes diferentes nos seguintes evangelhos, e de acordo com a tradicao, ele teria levado o evangelho a India, ou talvez a Etiopia... Mas o que representa a estatua ? Essa foi minha segunda feliz incursao pela Wikipedia: a representacao de Sao Bartolomeu segurando uma faca e uma pele humana nao eh incomum. Por exemplo, ela acontece tambem no Juizo Final de Michelangelo. E se trata da propria pele do santo. Uma explicacao eh a lenda do seu martirio na Turquia (ou talvez na Armenia), onde teriam cortado sua pele e decepado sua cabeca. Outra explicacao eh que seu corpo, que era mantido em Lipari na Sicilia, teria os ossos misteriosamente desaparecidos restando soh sua pele e sua cabeca.
De toda forma, uma brincadeira interessante visitando museus era tentar reconhecer os santos antes de ler o nome da obra, o que era bastante interessante. Outra vez que com sucesso aprendi algo com o Kindle foi visitando o Convento de la Concepcion, me Toledo, que aloja um El Greco famoso sobre a imaculada conceicao de Nossa Senhora. Quando entrei lah me lembrava vagamente de alguem ter me dito que contrario ao que a maioria das pessoas acreditava, a Imaculada Conceicao nao tinha a ver com a concepcao de Jesus mas com o fato do Espirito Santo ter protegido Nossa Senhora do pecado original. A conexao 3G mundial do Kindle novamente esclareceu tudo. De fato - como era indicado por Jesus nao aparecer no painel do El Greco - de fato a Imaculada Conceicao se refere a Nossa Senhora ter nascido sem pecado. O artigo da Wikipedia que discute os detalhes eh esse aqui.
Minha proxima duvida aconteceu no Marocos. Eu procurei mas nao consegui encontrar nada que me explicasse o que sao as quatro esferas no topo da Koutoubia:
Eu lembro de ter ouvido uma explicacao sobre isso em Granada, mas ela me escapa no momento. E lembro de ter visto os mesmos simbolos e varios lugares do sul da Espanha, como essa mesquita em Essaouira e na Giralda em Sevilla, alem de uma igreja em Granada.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Djemaa el Fna
Djemaa el Fna sempre foi meu sonho. E eu poderia comecar descrevendo como eu sempre imaginei ela ou como eu gostei de ler as Vozes de Marrakesh. Mas eu vou falar como ela realmente eh, o que eh ainda mais impressionante. Eu acabei de voltar do Marrocos, ou melhor, da minha viagem de 10 dias pos-EC-deadline com a minha namorada. Eu tenho varias outras coisas para escrever, como por exemplo sobre a Catedral da Almudena - mas vou deixar para depois.
A praca fica no meio da Medina em Marrakesh. A Medina eh enorme, confusa mas incrivelmente interessante. Eh uma concentracao de comercio (os souks) de deixar o Sahara do Rio com vergonha onde se encontra de tudo: potes coloridos, lampadas de henna, elefantes de madeira, lencos, vestidos, sapatos, bolsas, ervas, remedios, doces... um do lado do outro e se repetindo por muitas e muitas vezes. Eu me divirto muito comprando - na verdade, me interessava mais pelo processo de comprar algo do que pelos objetos em si e era uma bela licao pratica de Game Theory. As compras de davam pela barganha, basicamente: viravam para Carol e mostravam para ela lencos, tapetes, lampadas... e depois quando ela parecia gostar de algo (sim, eles falavam todas as linguas que voce quisesse - eu vi eles negociando em espanhol, frances, ingles, italiano, alemao...) e entao viravam para mim e perguntavam quanto eu queria pagar. Ou me davam um preco. A minha estrategia era mais ou menos a seguinte: eu tentava pedir a metade do preco e entao comecavamos a discutir: ele dizendo que meu preco era um absurdo, eu dizendo que nao pagava. Algumas vezes ele ia abaixando e eu ia cedendo um pouco e o preco ficava algo como 2/3 do original. Um bom truque eh quando a barganha fica empacada e voce ve que o preco nao vai abaixar, ao inves de tentar diminuir o preco, colocar mais um objeto na barganha. Algo como "por esse preco eu levo dois ou, soh se vc colocar esse outro lenco". Isso funciona surpreendentemente bem. Outro truque era virar pra Carol e dizer: "infelizmente nao dah" e dizer pro cara "obrigado, mas vamos embora". Aconteceu uma vez que realmente queriamos comprar uma coisa que era 1400 dinares - o que era um absurdo. No fim, depois de sair, o cara veio atras da gente dizendo que negociava e tal... no fim conseguimos por 350. Uma coisa legal eh que as coisas aparecem em varios lugares, entao mesmo que uma barganha nao de certo, voce sempre pode ir no comerciante do lado e tentar fazer um negocio.
Os souks sao impressionantes, mas nao se compara a Djemaa el Fna. No meio da Medina existe um grande espaco aberto, que eh a principal praca de Marrakesh - sim, eh um grande espaco de chao, sem arvores, ou construcoes ou bancos - mas eh talvez o lugar mais impressionante da Terra. Se existe algum lugar magico na Terra, esse lugar eh a Djemaa el Fna - eu eu nao fico com vergonha de dizer quando arrepiado eu ficava sempre que entrava lah.
Num canto estah um homem sentado num tapete/toalha e varios instrumentos de metal no tapete. Um prato cheio de dentes. E sim, pessoas vem para ter seus dentes arrancados no meio da praca. Mais adiante um homem rodeado de macacos-sem-rabo e mais um pouco adiante encantadores de serpentes. Sim, isso existe de verdade:
Um pouco mais adiante estava um homem segurando um sapo morto na mao e varios frascos - enquanto ele segurava ao sapo, ele gritava algo em arabe, e nao era claro se ele estava adivinhando o futuro nas entranhas do animal ou se era uma licao de anatomia anfibia. Homens faziam magica, seguravam fogo nas maos e outros simplesmente contavam historias e esses atraiam multidoes - quase todos de marroquinos ouvindo o que eles diziam. Era arabe, mas mesmo sem entender era fascinante acompanhar, como as pecas em Grammelot. Haviam mulheres sentadas em banquinhos fazendo tatuagens de henna e outras tantas lendo a sua sorte, jogando cartas ou decifrando as estrelas. Isso sem contar com as barraquinhas de frutas que eram espremidas na hora e toda a fumaca e cheiro de comida vindo de varias barracas e havia de tudo: de tajine a ostras.
Eu poderia falar de muita coisa sobre o Marrocos, como da travessia de Tarifa para Tangier, do Tajine, dos precos no mercado ou dos riads, mas acho que nada mais merece estar num post com a Djemaa el Fna.
A praca fica no meio da Medina em Marrakesh. A Medina eh enorme, confusa mas incrivelmente interessante. Eh uma concentracao de comercio (os souks) de deixar o Sahara do Rio com vergonha onde se encontra de tudo: potes coloridos, lampadas de henna, elefantes de madeira, lencos, vestidos, sapatos, bolsas, ervas, remedios, doces... um do lado do outro e se repetindo por muitas e muitas vezes. Eu me divirto muito comprando - na verdade, me interessava mais pelo processo de comprar algo do que pelos objetos em si e era uma bela licao pratica de Game Theory. As compras de davam pela barganha, basicamente: viravam para Carol e mostravam para ela lencos, tapetes, lampadas... e depois quando ela parecia gostar de algo (sim, eles falavam todas as linguas que voce quisesse - eu vi eles negociando em espanhol, frances, ingles, italiano, alemao...) e entao viravam para mim e perguntavam quanto eu queria pagar. Ou me davam um preco. A minha estrategia era mais ou menos a seguinte: eu tentava pedir a metade do preco e entao comecavamos a discutir: ele dizendo que meu preco era um absurdo, eu dizendo que nao pagava. Algumas vezes ele ia abaixando e eu ia cedendo um pouco e o preco ficava algo como 2/3 do original. Um bom truque eh quando a barganha fica empacada e voce ve que o preco nao vai abaixar, ao inves de tentar diminuir o preco, colocar mais um objeto na barganha. Algo como "por esse preco eu levo dois ou, soh se vc colocar esse outro lenco". Isso funciona surpreendentemente bem. Outro truque era virar pra Carol e dizer: "infelizmente nao dah" e dizer pro cara "obrigado, mas vamos embora". Aconteceu uma vez que realmente queriamos comprar uma coisa que era 1400 dinares - o que era um absurdo. No fim, depois de sair, o cara veio atras da gente dizendo que negociava e tal... no fim conseguimos por 350. Uma coisa legal eh que as coisas aparecem em varios lugares, entao mesmo que uma barganha nao de certo, voce sempre pode ir no comerciante do lado e tentar fazer um negocio.
Os souks sao impressionantes, mas nao se compara a Djemaa el Fna. No meio da Medina existe um grande espaco aberto, que eh a principal praca de Marrakesh - sim, eh um grande espaco de chao, sem arvores, ou construcoes ou bancos - mas eh talvez o lugar mais impressionante da Terra. Se existe algum lugar magico na Terra, esse lugar eh a Djemaa el Fna - eu eu nao fico com vergonha de dizer quando arrepiado eu ficava sempre que entrava lah.
Num canto estah um homem sentado num tapete/toalha e varios instrumentos de metal no tapete. Um prato cheio de dentes. E sim, pessoas vem para ter seus dentes arrancados no meio da praca. Mais adiante um homem rodeado de macacos-sem-rabo e mais um pouco adiante encantadores de serpentes. Sim, isso existe de verdade:
Um pouco mais adiante estava um homem segurando um sapo morto na mao e varios frascos - enquanto ele segurava ao sapo, ele gritava algo em arabe, e nao era claro se ele estava adivinhando o futuro nas entranhas do animal ou se era uma licao de anatomia anfibia. Homens faziam magica, seguravam fogo nas maos e outros simplesmente contavam historias e esses atraiam multidoes - quase todos de marroquinos ouvindo o que eles diziam. Era arabe, mas mesmo sem entender era fascinante acompanhar, como as pecas em Grammelot. Haviam mulheres sentadas em banquinhos fazendo tatuagens de henna e outras tantas lendo a sua sorte, jogando cartas ou decifrando as estrelas. Isso sem contar com as barraquinhas de frutas que eram espremidas na hora e toda a fumaca e cheiro de comida vindo de varias barracas e havia de tudo: de tajine a ostras.
Eu poderia falar de muita coisa sobre o Marrocos, como da travessia de Tarifa para Tangier, do Tajine, dos precos no mercado ou dos riads, mas acho que nada mais merece estar num post com a Djemaa el Fna.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Valor do Dinheiro (e loterias)
Voce pode estar pensando pelo titulo e pelo ultimo post que esse se tornou um blog de economia, da mesma forma que a algum tempo atras, parecia que esse blog ia se tornar um blog de comida. Mesmo isso nao sendo verdade, eu gostaria de falar um pouco sobre dinheiro. Como eu jah disse alguma vezes, eu adoro livros de economia pop, como Freakonomics, SuperFreakonomics, Predictably Irrational, e outros que nao se enquadram exatamente em economia pop, mas tem um sabor semelhante, como Blink. Eu fiquei feliz em descobri que o Freakonomics tem uma webradio: FreakonomicsRadio. Alias, baixei todos os podcasts deles e fiquei ouvindo na viagem de aviao para o Brasil - o que tornou a viagem bem mais agradavel - isso, junto com Angry Birds. Eu gostei bastante e estou aprendendo bastante com eles (estou me referindo ao Freakonomics Radio e nao ao Angry Birds).
Um episodio duplo eh sobre loterias, ou melhor, sobre a ideia do No-Lose Lottery. A ideia em linhas gerais eh bem interessante: um grande problema nos EUA eh que as pessoas nao juntam dinheiro o que torna elas muito vulneraveis a emergencias. Outro problema de varios paises eh o fato de muitas pessoas permanecerem unbanked, ou seja, nao usam bancos para guardar seu dinheiro. Isso faz com que menos dinheiro esteja no mercado, uma economia mais fria e denovo, as pessoas acham mais dificil juntar. Uma solucao que ele discute eh "lottery savings accounts". As pessoas nao querem colocar o seu dinheiro numa poupanca por exemplo, porque no final do mes elas ganham um rendimento infimo com aquilo - melhor entao deixar embaixo do colchao. Por outro lado, elas ficam felizes em comprar bilhetes de loteria que tem retorno medio muito abaixo do ridiculo retorno das poupancas. Por que as pessoas fazem isso? Elas sao irracionais? Ele discute bastante isso, inclusive apresenta a ideia de que a loteria seja um Fools Tax, ou seja, um imposto extra pago somente pelos idiotas. Os podcasts sao otimos e discutem como alguns paises implementaram poupancas onde em vez de voce ganhar o retorno infimo da poupanca, voce junta o retorno de todo mundo e sorteia para uma pessoas - que ganha a bolada. Dessa forma, a poupanca funciona como um bilhete de loteria e voce nao paga nada pelo bilhete (charada: como isso funciona? como voce estah na verdade "pagando" pelo bilhete?)
Mas eu vou desviar um pouco do tema e falar de outra coisa, mas ainda se mantendo a mesma ideia de: por que as pessoas jogam na loteria? (O que alias, eh um tema interessante no ano-novo por causa da Mega Sena da Virada. Se voce calcular p S - b onde:
Experimento 1: O que voce prefere, ganhar 5 reais com certeza ou 10 reais com probabilidade 1/2 (eu jogo uma moeda pro ar, e se cair cara, voce ganha 10 reais, se for coroa, voce nao ganha nada).
Experimento 2: O que voce prefere, ganhar 1 centavo com certeza ou ganhar um milhao de reais com probabilidade um sobre cem milhoes?
Bom, eu respondi que prefiro a certeza no experimento 1 e a incerteza no experimento 2 - vou supor que voce leitor escolheu o mesmo que eu. A questao eh que nos nao estamos tentando maximizar quanto dinheiro temos, mas a nossa felicidade com o dinheiro. No que isso eh diferente?
Bom, vamos definir uma funcao H(.) que diz quao feliz voce estah, digamos que H($1) eh a felcidade que voce extrai de 1 real (comprar um pao na padaria ou tomar um Coca-Cola), H($2000) eh a felcidade que voce extrai de 2000 reais (fazer uma viagem, trocar o guarda-roupa ou um iPad) e H($1 milhao) eh a felicidade que voce extrai de 1 milhao (algo como montar a propria empresa, viajar o mundo inteiro varias vezes, comprar aquele apartamento que voce sempre sonhou e tal...). Como a funcao se parece? Claramente quanto mais dinheiro voce tem, mais felicidade voce pode extrair dele. [ok, ok, ok... tem varias coisas que voce pode argumentar do contrario, mas vamos ignorar isso por um momento... se voce for desapegado a bens materiais, voce pode pensar que quanto mais dinheiro voce tem, mais dinheiro voce pode doar para a caridade, fazer outras pessoas felizes e tal... ou seja: vamos super que quanto mais dinheiro, melhor]. Mas como isso se parece. A primeira ideia eh que seria algo assim?
Se acreditamos nisso, entao nos dois experimentos acima, as duas opcoes deveriam ser completamente identicas, o que nao eh verdade. Em geral entre 10 reais com certeza e 100 reais com 1/10 chance, eu prefiro a primeira opcao. E isso eh o que diz o experimento 1. Formulando em termos da nossa funcao de felicidade H(.), temos o seguinte:
E isso indica que a funcao eh algo assim:
Matematicamente significa que a funcao eh concava. A funcao de felicidade acima eh caracteristica de pessoas aversas ao risco, ou seja, que preferem a certeza do que a incerteza. mas isso na explica o experimento 2 e nao explica as pessoas que saltam de paraquedas e que fazem bugee-jump. Essas em geral sao risk-seeking. O mesmo em relacao as pessoas que compram bilhetes de loteria. O experimento 2 eh explicado pela seguinte curva de felicidade, tipica das pessoas que gostam de riscos:
Na pratica, nos nao somos completamente risk-seeking ou risk-averse, mas uma combinacao dos dois. Dependendo do valor, somos mais ou menos propensos a aceitar riscos. Por exemplo, os experimentos acima parecem indicar algo assim:
Concava em determinadas regioes e convexa em outras: como ela se parece exatamente, depende de cada um. Para pessoas com a curva convexa o suficiente vale a pena tomar certos riscos.
Um episodio duplo eh sobre loterias, ou melhor, sobre a ideia do No-Lose Lottery. A ideia em linhas gerais eh bem interessante: um grande problema nos EUA eh que as pessoas nao juntam dinheiro o que torna elas muito vulneraveis a emergencias. Outro problema de varios paises eh o fato de muitas pessoas permanecerem unbanked, ou seja, nao usam bancos para guardar seu dinheiro. Isso faz com que menos dinheiro esteja no mercado, uma economia mais fria e denovo, as pessoas acham mais dificil juntar. Uma solucao que ele discute eh "lottery savings accounts". As pessoas nao querem colocar o seu dinheiro numa poupanca por exemplo, porque no final do mes elas ganham um rendimento infimo com aquilo - melhor entao deixar embaixo do colchao. Por outro lado, elas ficam felizes em comprar bilhetes de loteria que tem retorno medio muito abaixo do ridiculo retorno das poupancas. Por que as pessoas fazem isso? Elas sao irracionais? Ele discute bastante isso, inclusive apresenta a ideia de que a loteria seja um Fools Tax, ou seja, um imposto extra pago somente pelos idiotas. Os podcasts sao otimos e discutem como alguns paises implementaram poupancas onde em vez de voce ganhar o retorno infimo da poupanca, voce junta o retorno de todo mundo e sorteia para uma pessoas - que ganha a bolada. Dessa forma, a poupanca funciona como um bilhete de loteria e voce nao paga nada pelo bilhete (charada: como isso funciona? como voce estah na verdade "pagando" pelo bilhete?)
Mas eu vou desviar um pouco do tema e falar de outra coisa, mas ainda se mantendo a mesma ideia de: por que as pessoas jogam na loteria? (O que alias, eh um tema interessante no ano-novo por causa da Mega Sena da Virada. Se voce calcular p S - b onde:
- S = premio da loteria
- p = probabilidade de ganhar
- b = preco do bilhete
Experimento 1: O que voce prefere, ganhar 5 reais com certeza ou 10 reais com probabilidade 1/2 (eu jogo uma moeda pro ar, e se cair cara, voce ganha 10 reais, se for coroa, voce nao ganha nada).
Experimento 2: O que voce prefere, ganhar 1 centavo com certeza ou ganhar um milhao de reais com probabilidade um sobre cem milhoes?
Bom, eu respondi que prefiro a certeza no experimento 1 e a incerteza no experimento 2 - vou supor que voce leitor escolheu o mesmo que eu. A questao eh que nos nao estamos tentando maximizar quanto dinheiro temos, mas a nossa felicidade com o dinheiro. No que isso eh diferente?
Bom, vamos definir uma funcao H(.) que diz quao feliz voce estah, digamos que H($1) eh a felcidade que voce extrai de 1 real (comprar um pao na padaria ou tomar um Coca-Cola), H($2000) eh a felcidade que voce extrai de 2000 reais (fazer uma viagem, trocar o guarda-roupa ou um iPad) e H($1 milhao) eh a felicidade que voce extrai de 1 milhao (algo como montar a propria empresa, viajar o mundo inteiro varias vezes, comprar aquele apartamento que voce sempre sonhou e tal...). Como a funcao se parece? Claramente quanto mais dinheiro voce tem, mais felicidade voce pode extrair dele. [ok, ok, ok... tem varias coisas que voce pode argumentar do contrario, mas vamos ignorar isso por um momento... se voce for desapegado a bens materiais, voce pode pensar que quanto mais dinheiro voce tem, mais dinheiro voce pode doar para a caridade, fazer outras pessoas felizes e tal... ou seja: vamos super que quanto mais dinheiro, melhor]. Mas como isso se parece. A primeira ideia eh que seria algo assim?
Se acreditamos nisso, entao nos dois experimentos acima, as duas opcoes deveriam ser completamente identicas, o que nao eh verdade. Em geral entre 10 reais com certeza e 100 reais com 1/10 chance, eu prefiro a primeira opcao. E isso eh o que diz o experimento 1. Formulando em termos da nossa funcao de felicidade H(.), temos o seguinte:
E isso indica que a funcao eh algo assim:
Matematicamente significa que a funcao eh concava. A funcao de felicidade acima eh caracteristica de pessoas aversas ao risco, ou seja, que preferem a certeza do que a incerteza. mas isso na explica o experimento 2 e nao explica as pessoas que saltam de paraquedas e que fazem bugee-jump. Essas em geral sao risk-seeking. O mesmo em relacao as pessoas que compram bilhetes de loteria. O experimento 2 eh explicado pela seguinte curva de felicidade, tipica das pessoas que gostam de riscos:
Na pratica, nos nao somos completamente risk-seeking ou risk-averse, mas uma combinacao dos dois. Dependendo do valor, somos mais ou menos propensos a aceitar riscos. Por exemplo, os experimentos acima parecem indicar algo assim:
Concava em determinadas regioes e convexa em outras: como ela se parece exatamente, depende de cada um. Para pessoas com a curva convexa o suficiente vale a pena tomar certos riscos.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Ano com bons filmes
Esse foi um ano de bons filmes, mas tambem foi um ano que eu fui pouco ao cinema, o que somado significa que a proporcao de coisas que eu assisti e gostei muito foi alta. Primeiro, Inception eh excelente e era o filme esperado do ano - sim, foi otimo - eu me diverti muito. Mas gostei tambem muito de outros, como "You'll meet a Tall Dark Stranger" do sempre otimo Woody Allen. Nessa mesma semana eu vi The Town, que eh legal, mas mais por mostrar Boston do que por qualquer outra coisa. E ok, eu estava esperando os blockbusters como Harry Potter. Vi tambem o otimo (mas triste) documentario "Waiting for Superman" - sobre a educacao americana. E sim, eu fico deprimido pensando na educacao brasileira se o estado da educacao americana eh esse. Estando no Brasil, eu assiti varios filmes otimos em seguida:
- Kick Ass: muito bom, recomendo fortemente
- Tropa de Elite 2: isso, eu soh vi agora. Gostei muito e achei eles muito inteligente: nao ia ser interessante ter mais um filme do Cap Nascimento batendo em traficantes. A cena dele batendo em politicos eh catartica para a maioria dos brasileiros.
- Shutter Island: Eh um filme do Martin Scorsese baseado em um livro do Dennis Lehane (se voce gostou de Mystic River, por exemplo, voce vai gostar [bem mais, eu acho] deste filme. Eu tento nao contar historias de filmes, mas desse eh tentador. Mas vou evitar e se voce quiser, pode ler no imdb, mas recomendo fortemente fazer como eu e ver ele sem ler nada. Em portugues acho que ele eh chamado "Ilha do Medo", que eh misleading, porque nao eh um filme de terros e sim um thriller psicologico.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Fatores de desconto
Pequena (?) Introducao sobre o Silencio desse Blog
A algumas semanas atras, Guilherme comentou sobre o silencio desse blog (ele usou uma expressao envolvendo teias de aranha). No entanto, por varias vezes nesses ultimos meses eu quis escrever posts, mas por uma razao ou por outra eu acabei nao fazendo. Varias coisas que eu queria dizer mereciam um post por elas mesmas, mas acho que ser breve eh melhor do que nao falar, entao eis aih um resumo sobre o que eu pensei em escrever (sim, sao temas recorrentes, como o leitor desse blog espera).
- Do excelente artigo que eu li na New Yorker chamado "What Good Is Wall Street?". Ele responde perguntas que eu sempre tive: a principal delas eh "Qual eh a finalidade do mercado financeiro?". Quando eu estava na faculdade varias pessoas eram muito atraidas pelo mercado financeiro por duas razoes: (i) parecia usar ferramentas matematicas interessantes e parecia estar precisando de "some geeks bearing formular" e (ii) voce podia ganhar muito dinheiro e rapido. Acho que eu era mais atraido pela primeira razao, mas a maioria das pessoas era por uma combinacao convexa das duas - com maior peso para a razao (ii), eu acho. Mas pouco eu via discutindo sobre "mas porque mercado financeiro?" Eh bem claro pra mim porque engenheiros e medicos sao importantes para a sociedade. Mas porque financas eh importante?
Como regra geral, uma atividade se sustenta se ela gera valor social. O mercado financeiro tem um valor social muito importante: alocar o dinheiro da forma certa. Existe muito dinheiro por aih e recursos para serem aplicados em atividades produtivas, mas como usar ele? O mercado financeiro conecta as pessoas que tem dinheiro para investir e pessoas que tem ideias boas mas precisam de capital. Mas do que isso, o mercado tem mecanismos para decidir quais atividades vao ser mais socialmente uteis. O mercado tem mecanismos para decidir se vale mais a pena investir, por exemplo, em plantar soja ou em uma fabrica de aco e quanto dinheiro colocar lah. Isso nao eh muito claro, porque isso fica escondido por tras de nomes complicados como stocks, trading, bonds, insurance, options, ...
Ou seja, financas gera dinheiro porque prove um servico muito util, que eh gerar eficiencia no mercado. Isso eh bem explicado no artigo da New Yorker (eles fazem um trabalho muito melhor do que eu estou fazendo aqui) e ele discute tambem se os novos instrumentos - bem mais esotericos que financas andam usando hoje ainda servem a esse proposito de gerar bem-estar-social e explica coisas como subprime mortgages, high-frequency trading, ...
- Meu mapa de restaurantes em Boston e meu mapa de restaurantes em NYC foram (bastante) expandidos. Em particular eu enfim comi pato laqueado em Chinatown (tres vezes - mas nao no mesmo dia, deixando isso bem claro) e eh impressionante.
- Dos varios livros que tenho comecado a ler mas nao terminei - alias esse semestre foi cheio deles - a maior parte deles sao muito bons livros, mas pela mesma razao de que tenho escrito pouco nesse blog, tenho tambem lido menos - ou pelo menos de uma forma mais erratica: comecei a ler Voices of Marrakesh (otimo! tem varios pequenos relatos de viagem), Snow Country, High-Fidelity, Surely You Are Joking Mr Feynman (muito bom, esse eu praticamente terminei), ... A maioria deles eh composto de pequenas historias - entao ler uma parte eh interessante por si soh.
- Da minha crescente paixao (vicio?) por cafe e de como eu tenho aprendido a operar uma maquina de cafe semi-automatica (ok, ok, nao eh nada muito dificil - pelo contrario, eh bem facil) e do fato de eu estar batalhando comigo mesmo e minhas financas para comprar eu mesmo uma maquina de cafe para minha casa.
- Tenho passeios interessantes pela Wikipedia, por exemplo quando acordei com o nome Wheel of Fortune na cabeca e entao passei por paginas como: Wheel of Fortune (taro card) --> Rota Fortunae --> Monk's Tale --> The Canterbury Tales (e isso tudo me lembra o fabuloso The Castle of Crossed Destinies - e nao sei como ser mais enfatico em recomendar esse livro)
- Da minha impressao de Las Vegas e do deserto em Nevada. Ou do que eu achei de Seattle ou ainda mais sobre minha impresao sobre a colecao de arte oriental do Museu de Princeton. Mas vou me furtar de todos esses topicos. No entanto talvez volte a eles no futuro.
- e claro, meu assunto preferido do momento. Mas como eh melhor ser classico do que ser polemico, vou falar de outro assunto: fatores de desconto (abaixo). Brevemente: acho que o Guardian e o NYT fazem um trabalho muito melhor que eu de falar sobre os leaks. Eh sempre legal ler os cables do Brasil. Ultima nota antes de seguir em frente: me deixa de certa forma chateado ver que a imprensa mundial estah dando atencao aos cable e a imprensa brasilera nao estah nem aih - posso estar errado, mas nao vi praticamente nada sobre o Wikileaks affair no Globo, Veja, ...
Fatores de Desconto
Bom, o objetivo de quando eu comecei a escrever era falar de Fatores de Desconto. Isso pertence a classe de coisas que eu ouco falar varias vezes, entendo, mas de repente alguem me explica denovo de uma forma que faz todo sentido e entao eu entendo o real significado. Fatores de desconto estao relacionados com algo muito caro a todos nos: tomar decisoes sobre o que vamos fazer da nossa vida. Em geral nos temos sempre o trade-off entre escolher coisas que vao ser boas para nos hoje (tomar sorvete, ir a praia, ...) e coisas que vao ser boas para nos no futuro (estudar, fazer dieta, ...). O mesmo voce pode pensar em termos de achar um emprego ou trabalhar num topico de pesquisa: arrumar um emprego com um bom salario agora mas sem muitas perspectivas de crescimento ou um emprego com um salario nao tao bom, mas com possibilidades dele aumentar. Eh comum em lojas voce escolher entre pagar a vista uma coisa ou pagar um pouco mais, mas parcelar. E nos temos que escolher esse trade-off entre o eu-presente e o eu-futuro.
Isso eh em geral modelado como um jogo: suponha que todo dia jogamos um determinado jogo nos tempo t=0,2,..., T e que as decisoes que tomamos hoje afetam o futuro. Mas cada dia ganhamos ou perdemos algo e o balanco eh u[t]. Quando tomamos uma decisao agora (no tempo zero), o que estamos tentando maximizar. Um modelo interessate eh pensar que estamos tentando maximizar nossos ganhos com um balanco δ em [0,1], ou seja:
Quanto maior eh o valor de δ, mais voce pensa no futuro. O extremo seria uma pessoa com δ=1, para quem o valor de uma coisa daqui a 10 anos eh o mesmo valor disso hoje. O outro extremo δ=0 eh uma crianca pequena, que se importa com o que ela vai ganhar agora e nao com o que ela vai ganhar amanha. Ou seja, quem tem δ=1 estah preocupado em maximizar u[0] + ... + u[T] e quem tem δ=0 quer maximizar somente u[0]. Em geral nao somos de uma forma nem de outra e sim um meio termo: pensamos de certa forma no futuro, mas se nos eh dado um dolar, preferimos ganhar esse dolar hoje do que esse dolar amanha. Por que se eh 1 dolar da mesma forma? Bom, nos esperamos nao morrer, mas existe uma certa probabilidade pequena de que voce nao esteja mais aqui amanha. Se vc acredita que vai morrer (ou, para fazer a explicacao menos tragica, viajar, parar de se importar com dinheiro, ...) com probabilidade 1-δ entao o valor de um dolar hoje eh 1, mas ganhar esse valor amanha eh somente δ.
Tipicamente, usamos valores de δ menores que "um menos a probabilidade de morrer hoje". Na verdade, existem outras razoes voce pode preferir o dinheiro hoje: por exemplo, se voce receber um dolar hoje, voce pode investir ele e amanha voce vai ter algo como 1/δ, entao o seu valor de ganha um dolar amanha eh somente δ.
Mas nao somente isso: se um amigo chega e diz que vai te pagar 2.01 dolars amanha ou 2.00 dolars hoje, eu geralmente prefiro a opcao de ganhar 2.00 dolars hoje. Por que? Eu em geral nao vou pegar aquele 0.01 e investir na mesma hora - ele vai ficar no meu bolso. Mas eu sempre penso que: "ele pode esquecer de me pagar, eu vou esquecer de cobrar..." e esse fator de desconto cuida dessa pequena probabilidade. No entanto se a opcao era pagar 10 dolares hoje e 15 dolares amanha, talvez a coisa mudasse. Fazendo pequenos experimentos assim, voce pode avaliar quanto vale o seu fator de desconto.
Uma outra razao pela qual eu tenho pensado cada vez mais em fatores de desconto eh a seguinte: as vezes voce vai a uma loja e pode comprar uma coisa por um preco x, ou ganhar um desconto e comprar uma coisa por (1-ε)x. Mas o preco de (1-ε)x te forca a ir na internet e fazer algo, ou voltar na loja mais tarde e pegar os produtos mais tarde (isso aconteceu ontem na verdade - fui fazer umas comprar de Natal e a vendedora me falou que me dava 20% de desconto se eu voltasse pra pegar os produtos soh na quinta). Aih o fator de desconto entra por outra razao: voce pensa algo como: eu tenho algo melhor para fazer com o meu tempo do que voltar aqui e acho que a diferenca compensa. Nesse caso o fator de desconto entra porque voce tem outras opcoes: um melhor investimento para o seu tempo ou seu dinheiro.
Eu pensei em terminar esse post falando sobre implicacoes morais da ideia de fatores de desconto - mas acho que nao tenho uma historia muito boa para contar sobre isso. No entanto pensar em termos deles, esclarece muito do que acontece no mundo - quao imediatistas ou nao somos, eh uma funcao do fator de desconto que usamos. De toda forma, eu gostaria de ter mais intuicao sobre isso. Minha lista preliminar de coisas que influenciam o fator sao:
- sua probabilidade de estar aqui amanha (seja lah onde aqui seja)
- que outros usos voce tem para o seu dinheiro ou tempo
- quanto voce se satisfaz em pensar no futuro versus fazer coisas agora
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