sábado, 5 de novembro de 2011

Viagem rapida a San Francisco em algumas fotos

Em ordem cronologica, minha viagem com a Carol de Mountain View a SF e de volta. O plano era ficar andando pelo Mission District e depois andar ateh o pier. Estava um dia bem nublado, mas conseguimos pegar o final do Farmers Market e ainda vimos a ocupacao do distrito financeiro de SF. Um dos meus planos era ir ao Weird Fish, mas estava fechado :( Gostei muito do Ritual Coffee e achei umas padarias aleatoriamente que eram interessantes. Consegui comprar mel e queijo no Farmers Market e chegar bem perto de uma ave no cais.





 






Esses aih em cima sao o #occupySF .




terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Romance d'A Pedra do Reino


Eu terminei hoje de ler O Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, e eh o livro brasileiro que eu tive mais prazer em ler ateh hoje. Eu jah estou lendo a um certo tempo (desde junho), parte porque o livro eh grande e em parte porque a cada dia que passa eu leio mais devagar. E  fiquei triste porque ele acabou - eu estava quase todo dia acordando e lendo um ou dois capitulos no cafe da manha e jah me acostumei em fazer isso (antes eu lia andando de metro).

Eh dificil explicar por que eu gostei tanto - eu jah tinha lido outros livros do Ariano Suassuna e sempre gostei do que li, mas esse eh diferente - ele eh tido como a obra-prima de Suassuna e do Movimento Armorial, que "uma iniciativa artística que tem como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro". Eu lembro do que eu estudei em Literatura na escola e acho uma grande falta nao mencionarem o Movimento Armorial - eu me diverti e aprendi tao mais com esse livro sobre a cultura brasileira do que com todos os livros que eu li na escola.

Vou acabar descrevendo ele mal, mas vou tentar mesmo assim. Eh de certa forma um romance de cavalaria - sobre a Demanda Novelosa do Principe do Cavalo Branco - inspirado nas narrativas magicas dos folhetos populares do Nordeste, mas ao mesmo tempo seguindo os moldes dos grandes romances de cavalaria europeus. Personagens como o Dom Sebastiao, o Desejado, o principe enevoado de Portugal, os profetas do Antigo Testamento, Homero e os Doze Pares de Franca de Carlos Magno, todos eles se misturam nos Sertoes Velhos do Cariri com Cangaceiros, Zumbi, Antonio Conselheiro, a Coluna Prestes e o Movimento Integralista. Eh o retrato mais bonito que eu li ateh hoje do Brasil - misturando nosso passado "iberico e fidalgo" com o nosso sangue "negro e tapuia" e nos fazendo assim "sertanejos e castanhos". A dualidade estah sempre lah, de um lado os comunistas e outro os integralistas, de um lado o governo e Antonio Conselheiro, a prosa e a poesia, ... e essa continua tensao eh que faz o romance tao gostoso. Mas nao se engane: pelo que eu falei ateh agora, voce pode estar pensando que se trata de um livro intelectual e dificil - muito pelo contrario, ele eh uma historia divertida, das dificeis de parar de ler, magico e narrado em estilo popular, como se fosse um folheto. De fato, cada capitulo eh chamado de folheto, estes organizados em 5 livros. Ele comeca com algo como:
  • FOLHETO I : Pequeno Cantar Acadêmico a Modo de Introdução
  • FOLHETO II : O Caso da Estranha Cavalgada
  • FOLHETO III : A Aventura da Emboscada Sertaneja
  • FOLHETO IV : O Caso do Fazendeiro Degolado
  • ...
Em determinado nivel, bem mais profundo, ele eh um romance erudito e sofisticado - mas isso estah oculto por tras de uma historia magica e sertaneja.

Terminando o livro, eu li essa entrevista com o Ariano Suassuna, que recomendo muito. Eh uma entrevista de 1990, quando Collor ainda era presidente do Brasil. A entrevista dah uma certa nostalgia do Brasil que eu vivia quando tinha 6 ou 7 anos, que eu estava comecando a entender. Na entrevista Suassuna critica Collor (2 anos antes de sabermos de tudo), a tropicalia, diz que nao gosta de Caetano Veloso, fala mal do marxismo e se diz um monarquista de esquerda. Ao mesmo tempo fala do seu amor ao teatro e ao circo, do Movimento Armorial, do seu pai e das suas lembrancas ruins da revolucao de 1930, ... eh uma bela entrevista. Depois de ter livro A Pedra do Reino, eu acho que eu consigo apreciar ela bem e ver que tudo faz muito sentido - mas talvez a entrevista faca menos sentido, antes de ler esse ou algum dos outros livros dele - onde todos esses elementos acima aparecem de uma forma ou de outra.

A Pedra do Reino faria parte de uma obra maior, uma trilogia chamada "A Maravilhosa Desventura de Quaderna, o Decifrador, e a Demanda Novelosa do Reino do Sertao" do qual a Pedra do Reino seria a primeira parte. A Pedra do Reino eh um romance muito bem acabado, que sozinho eh uma das historias mais impressionantes que eu jah li. Mas dois outros livros estavam prometidos no caminho da trilogia:
  • II — HISTÓRIA D’O REI DEGOLADO NAS CATINGAS DO SERTÃO.
  • III — O ROMANCE DE SINÉSIO, O ALUMIOSO, PRÍNCIPE DA BANDEIRA DO DIVINO DO SERTÃO
e infelizmente eles nunca vieram a ser publicados. A Pedra do Reino eh um romance muito cuidadosamente escrito e cada parte dele parece muito bem pensada. Ele disse que demorou 12 anos para escrever. A Pedra do Reino eh de 1971. Em 1976, a primeira parte do Rei Degolado foi publicada - com o subtitulo de "Ao sol da Onça Caetana". Infelizmente hoje em dia nao existe uma edicao atual e eu nao consegui achar nada na internet alem de sebos vendendo ela por precos absurdos. Depois de 76 nao houve mais continuacao. O que de certa forma me deixa triste, porque eu gostaria de continuar lendo, mas por outro lado eu entendo. A Pedra do Reino em si eh uma obra fantastica e nao precisa de um complemento. Mas que seria bom ler os outros dois volumes se eles existissem seria!

Aqui a capa do Rei Degolado que eu consegui achar na internet:


terça-feira, 10 de maio de 2011

Panorama da Cidade Antiga

Hoje foi dia da Independencia de Israel, e mesmo eu fugindo das comemoracoes (acho que deve ser porque eu fugi bastante do 7 de setembro quando era aluno do IME) eu fui andar pela Old City de Jerusalem e achei a Cidadela do Rei Davi aberta e de graca -- ela eh um museu com um ingresso para entrar -- mas como acontece nos feriados, ela estava simplesmente aberta. A cidadela faz parte de um complexo de defesa construido parte pelos otomanos e parte pelos bizantinos que fica logo na entrada da Old City, do lado do Jaffa Gate, que eh a porta que dah na estrada que no passado levava a Jaffa (hoje Tel Aviv-Yafo). Subir na citadela dah uma vista impressionante da cidade.

Eu passei um certo tempo tirando fotos lah em cima e resolvi fazer um panorama. Chegando em casa, eu aprendi a usar o Hugin - um excelente photo sticher que eh multi-plataforma. No comeco eu achei meio dificil. De fato a interface dele nao eh muito auto-explicativa. Mas depois de ler um tutorial pequeno no proprio site, eu entendi o poder dele e fiquei fascinado com o que ele podia fazer e com a qualidade do resultado no final.

Como eu disse eu fiz o panorama do ponto mais alto da cidadela olhando para a Cidade Antiga. O seguinte mapa tme o lugar onde eu estava e meu campo de visao, assim como os principais destaques da paisagem:


E o panorama aih abaixo, com a legenda dos lugares:


Aqui alguns links -- ainda as mesmas fotos de celular grudadas com o hugin, mas
Eu tirei umas fotos mais para o sul tambem - mas nao consegui incluir no panorama, o que eh uma pena, por nao poder ter na mesma foto a bela Dormition Abbey, onde Nossa Senhora dormiu o Santo Sono.

domingo, 8 de maio de 2011

Alfajores

Eu concordo que a busca diligente eh uma forma bastante honesta de se entender o mundo, mas eh fato de que as vezes as verdades da vida sao aprendidas pelo mais puro acaso. Isso aconteceu hoje a tarde na padaria aqui em Jerusalem. Eu pedi um doce que estava exposto no balcao. Ele tinha um nome em Hebrew que eu nao entendi. Chegando em casa, minha surpresa (!) eh que era um alfajor. Eu voltei e verifiquei se era uma padaria argentina. Nao era!

Como eh suspeito de todas as palavras comecando em al, se trata de um doce originalmente arabe - chamado الفاخر. Aparentemente ele chegou na Espanha quando ela foi conquistada pelos arabes - Al-Andalus. Sobre a etmologia (via Wikipedia):
"... alfajor, would be an andalusism for the castellanism alajú, derived from the Arabic word الفاخر, [al- fakhur], which is not known, neither found in América, where andalusians introduced it as alfajor, from the arabic word alfahua that means honeycomb..."
 E se espalhou pela America do Sul - sendo bastante modificado, no entanto - mas nao tanto que me permitiu identifica-lo na padaria. Ainda:
"Due to the popularity of this food they already were in the warehouses of the first ships of the Spaniards on their way to America. The earliest references to its presence in Latin America referred to Venezuela and Peru, where they were given as ration to the Spanish troops."

terça-feira, 3 de maio de 2011

Semana Santa em Israel

Semana passada foi Semana Santa e passar em Jerusalem (القُدس) foi uma experiencia bastante interessante. A semana corresponde ao Passover (Pessach) judeu - que comemora quando o povo hebreu saiu do Egito, comandado por Moises. O nome Passover se refere (de acordo com a Wikipedia) a ultima praga do Egito, quando os primogenitos egipcios foram mortos. Os hebreus marcaram as suas casas com sangue de carneiro para que o espirito passasse direto (pass over) e nao matasse os seus primogenitos. Logo depois disso o farao libertou-os para que eles pudessem voltar a Israel e na pressa da saida, eles nao esperaram o pao fermentar - e por essa razao nessa semana nao se consegue comprar pao em Israel. O que se come eh uma versao nao fermentada chamada matzo. Um detalhe curioso eh que a Ultima Ceia de Cristo foi uma Ceia de Pesach (Passover Dinner) - e portanto faz sentido que os dois acontecam na mesma epoca.

Mas a parte mais interessante foi ir as cerimonias da Semana Santa no lugar onde elas de fato ocorreram - ou pelo menos no lugar que a tradicao atribui como sendo o lugar onde os fatos biblicos ocorreram. A maioria desses lugares sao hoje Igrejas catolicas ortodoxas - a Igreja do Oriente, que se separou da Igreja Catolica do Ocidente (a Igreja Romana) em 1054. No sabado - uma semana e um dia antes da Pascoa - fui a al-Eizariya (mas talvez voce conheca pelo nome biblico de Bethania) onde Jesus ressucitou Lazaro. No sabado existe uma cerimonia na Igreja que fica na casa onde as irmas de Lazaro (Maria e Marta) moravam e uma procissao ateh a sua tumba. Gostei tambem de ir pela primeira vez no West Bank.

Depois foi Domingo de Ramos e eu achei super dificil achar uma missa em ingles para assistir, mas no fim consegui. Depois disso fiquei andando pela Cidade Antiga, onde fica a Via Dolorosa (via crucis). No final da Via Dolorosa, fica a Igreja do Santo Sepulcro, tambem chamada Igreja da Ressurreicao. Santa Helena, padroeira dos arqueologos e mae de Sao Constantino, na sua expedicao a Jerusalem teria achado a cruz onde Cristo foi crucificado e o local exato - conhecido como Golgotha ou o Monte do Calvario. Eh a Igreja da seguinte foto:


A Igreja eh dividida por varias variantes cristaes: a igreja catolica, a igreja do Oriente, a igreja copta, a armenia... entao se veem varios padres/monges. Eh um pouco triste saber que eles ficam constantemente brigando pelo controle da Igreja e isso eh mais ou menos claro. Dentro do Santo Sepulcro fica uma Igreja dentro da Igreja que eh onde Cristo foi enterrado depois de ser crucificado.

No domingo, passando por lah, eu tive a sorte de estar acontecendo uma procissao ortodoxa e acabei vendo mais ou menos de perto Theophilos III, o Patriarca de Jerusalem, que eh um dos quatro patriarcas da Igreja Ortodoxa, junto com o Patriarca de Constantinopla, o Patriarca de Alexandria e o Patriarca da Antioquia.

Durante a semana acabei indo algumas vezes a Old City para varias cerimonias, fui a Galileia... Um dos lugares que gostei muito de ir, e que eh 10 minutos andando da minha casa, eh o Mosteiro da Cruz - onde a tradicao diz que foi plantada a arvore que deu origem a cruz. A historia eh bem mais longa que isso, na verdade: o lugar eh onde Adao foi enterrado. No mesmo lugar, Lot, sobrinho de Abrahao, teria plantado uma arvore - usando como semente tres cajados deixados por anjos - para pedir perdao a Deus por ter  dormido com suas filhas (apos ser embebedado e seduzido) depois do episodio de Sodoma e Gomorra. A mesma arvore foi usada para fazer a cruz onde Cristo foi crucificado. Pelo que eu entendi do que eu li no mosteiro, como a arvore simbolizava a vergonha de Lot, ela causaria mais sofrimento e por isso usaram ela para a cruz.

Outro lugar interessante, principalmente no contexto da Semana Santa, eh o Monte das Oliveiras, que eh o cenario inicial da Paixao de Cristo - onde ele foi preso. No lugar onde ele sofreu e suou sangue eh hoje a Igreja da Agonia, do lado do Jardim de Gethsemane, na foto abaixo:
Muito proximo, estah a tumba de Nossa Senhora. Pelo que eu li, existe muita divergencia sobre a morte de Nossa Senhora. Na versao que eu conhecia, Nossa Senhora nao tinha morrido e tinha sido assunta aos ceus, por isso Nossa Senhora da Assuncao. De acordo com a tradicao do Cristianismo Ortodoxo, no entanto, Nossa Senhora teria morrido (na verdade, nao exatamente morrido, mas dormido o Santo Sono) e depois de tres dias teria ressucitado, tal como Cristo, e trazida de corpo e alma aos ceus. No mesmo monte fica a Igreja de Santa Maria Madalena - uma Igreja Ortodoxa Russa- uma bela construcao russa:
mas talvez o mais interessante dessa regiao seja a Porta do Juizo Final tambem chamada a Porta da Vida Eterna, a Porta da Misericordia ou o Portao Dourado. Eh a unica porta de Jerusalem que estah permanentemente trancada, de onde se acredita que o Juizo Final vai comecar, por onde Cristo vira ao mundo pela segunda vez, onde os pais de Jesus (Santa Ana e Sao Joaquim) teriam se conhecido e por onde Jesus entrou em Jerusalem no Domingo de Ramos, comecando a Paixao. A porta foi trancada pelo sultao durante o dominio otomano de Jerusalem, que alem de trancar a porta, construiu um cemiterio na frente dela, temendo a vinda do messias e com ela o fim do dominio otomano da cidade. O cemiterio era para que o messias - que ele esperava ser um sacerdote judaico - nao pudesse passar, jah que eles sao proibidos de entrar em cemiterios (ao menos eh isso que a Wikipedia parece dizer).


Mas talvez a cerimonia mais impressionante eh a do Fogo Santo (Holy Fire) que acontece no Sabado antes da Pascoa - eh um milagre anual que eh realizado dentro do Santo Sepulcro, onde o Patriarca de Jerusalem entra no Santo Sepulcro com duas velas e as velas acendem magicamente - o fogo eh entao passado a milhares de fieis esperando com velas ao redor da Igreja e eles passam o fogo adiante e assim vai. O fogo eh levado a varios paises, e de lah para as igrejas e os fieis ortodoxos levam o fogo para os altares nas suas casa. Foi uma aventura interessante ir lah. A cerimonia comecava as 2 da tarde na frente do Santo Sepulcro. Um amigo meu chegou 6 da manha e conseguiu entrar no Santo Sepulcro. Eu cheguei somente as 11 da manha e a cidade estava fechada. Exatamente: nao se conseguia entrar na cidade antiga. Chegamos no Jaffa gate, um dos principais portoes do bairro cristao e vimos varias velhinhas russas segurando velas e chorando e chorando que queriam entrar para chegar perto do Santo Fogo.  Ficamos um tempo tentando entrar, mas vimos que nao havia jeito. Entao tivemos  a ideia de tentar o proximo portao - the Zion Gate. Disseram para gente que todos os portoes estariam fechados, mas decidimos tentar o proximo portao - e talvez o proximo se nao funcionasse, dizendo que iamos para o bairro judeu e nao para o bairro cristao. No proximo portao (Zion Gate) - que eh mais ou menos escondido no muro, deixaram-nos passar sem problemas e entramos na Cidadae Antiga, mas mesmo assim, bem longe do bairro cristao. Andamos no bairro armenio e chegamos em fim ao bairro cristao, que tinha policiais e barreiras por toda parte, tentando controlar os fieis. E entao me senti num filme de espioes tentando chegar ateh o igreja e vencendo as barreiras policiais. A cidade eh um verdadeiro labirinto, cheio de souks (mercados) e com lojas com  varias portas - o que tornava o trabalho da policia bem complicado. Acho que o trabalho deles nao era exatamente barrar as pessoas mas dificultar que elas chegassem perto. Barreiras cheias de gente definitivamente nao deixavam ninguem passar - outras com uma ou duas pessoas, era facil que eles deixassem a gente passar pedindo um pouco. Entrar no bairro cristao foi facil  - na primeira barreira estavam deixando as pessoas passarem do bairro armenio para lah.
depois tentamos o caminho natural para o Santo Sepulcro, via o Muristan e a rua de Santa Helena - que naturalmente estava fechado. Foi interessante ter varias lojinhas e restaurantes do lado, nos oferencendo que pagassemos 200 euros e eles deixassem que passassemos pela porta dos fundos deles para entrar na Muristan. O preco estava muito alto e nao pagamos. M s tentamos seguir em frente. Contornamos e fomos seguindo pelos souks passando pelas barreiras que deixavam-nos passar e tentando contornar as que nao deixavam passar por dentro dos souks. No fim chegamos bem perto - quase do lado do Patriarcado Copta.

Ficamos lah esperando  pelo Santo Fogo - a mais ou menos um bloco do Santo Sepulcro, vendo uma multidao de pessoas, que como nos tinha conseguido vencer a maior parte das barreiras policias (ou estava lah desde muito cedo) com velas,sentados no chao ou ansioso... ateh que vimos varias vozes da direcao da Igreja e imaginamos que o Santo Fogo tinha comecado a se espalhar pelos fieis. De repente, passa um padre ortodoxo correndo e escoltado pela policia com o Santo Fogo, indo levar ele para Belem. As pessoas tentam freneticamente acender suas velas na vela do padre, mas nao conseguem porque a policia nao deixa. Alguns momentos depois, vem varias pessoas descendo do Patriarcado Copta com velas acesas. Foi uma imagem bonita - varios cristaos africanos vestidos de branco e segurando velas (a Igreja Copta eh uma versao africana da Igreja Ortodoxa do Oriente) e ascendem as velas da multidao perto de onde estavamos. As pessoas comecam a ascender as velas umas das outras, rezar e, como a tradicao diz que o Santo Fogo nao queima, colocar suas maos e rosto no fogo - e de fato ele parecia nao queimar .

terça-feira, 26 de abril de 2011

Yrušalaym

Jah estou a quase um mes em Jerusalem (יְרוּשָׁלַיִם‎‎) visitando o Center for the Study of Rationality. Acho que nao tem nenhuma outra cidade no mundo da qual haja mais para se falar do que essa. De acordo com a Wikipedia, ela jah foi destruida 2 vezes, cercada 23 vezes, atacada 52 vezes e capturada 44 vezes. Depois do antigo Reino de Israel (Casa de David), a cidade jah foi assiria, babilonia, macedonia, romana, bizantina, arabe, um reino catolico (quando os Cruzados tomaram Jerusalem por uns 200 anos), voltando a ser arabe, turco-otomana (por quase 500 anos), ateh virar colonia britanica depois da primeira guerra, e depois da formacao do moderno Estado de Israel ela estah dividida entre Israel e Palestina.

Nao eh a toa que a cidade sempre viveu na minha imaginacao - e na da maioria das pessoas - e era considerada o centro do mundo.  Abaixo tem um  mosaico que eu vi andando na Yafo Street:


que eh uma reproducao de "Die Welt als Kleeblatt" do teologo alemao Heinrich Bünting, que alias tem varios outros mapas interessantes, tais como esse, onde a Europa eh representada como uma rainha. Mas voltando as representacoes, Jerusalem tem varios mapas indicando sua natureza dual: ao mesmo tempo o palco da historia divina e eh o cenario de varias guerras e conflitos completamente humanos.



A cidade eh sagrada para as tres principais religioes do ocidente, e lah eh onde tudo comecou: em todos os sentidos. O monte do templo eh o local de onde o Universo se expandiu e de onde Deus tirou o po do qual fez Adao.


Foi no mesmo monte que Abrahao estava prestes sacrificar Isaac (e a pedra do sacrificio estah lah, dentro da mesquita na foto acima - Dome of the Rock). E nesse lugar Maome subiu as ceus na sua Jornada Noturna.

sábado, 19 de março de 2011

Brigadeiro e doce de banana

Quando eu aprendo coisas simples fora da minha area, eu fico logo entusiasmado. Eu sei fazer brigadeiro a algum tempo, mas hoje fiz um experimento que levou ele a outro nivel, e acho que nada mais justo que relatar isso. Tudo comecou quando a um mes atras, Carol me ensinou a fazer doce de banana. Na verdade, o que ela me ensinou eh mais um framework do que uma receita. O mais surpreendente eh que voce nao precisa nada mais do que banana e acucar (se voce tiver bananas jah ficando meio pretas, eh melhor ainda). Eh a coisa mais simples do mundo:
O q vc precisa:
x bananas, onde x eh qualquer inteiro positivo
agua, acucar, panela e fogao

Como fazer:

Corte as bananas em rodelas e coloque numa panela com um pouquinho de agua (o nivel da agua eh mais ou menos um dedo). Se as bananas nao estiverem maduras ou estiverem pouco doces ou voce preferir mais doce, coloque acucar tb. Eu recomendo uma colher para cada banana. Deixe cozinhando em fogo baixo e va mexendo. Para nao deixar queimar, quando a agua estiver secando, vc vai adicionando mais um pouco e vai cozinhando e mexendo (sempre em fogo baixo). Continue esse processo ateh ficar com a cor e a textura que voce quer - eu geralmente espero ele ficar mais amarronzado.

A receita eh um framework porque nao existe nada sagrado sobre bananas nela. Por exemplo, voce pode fazer o mesmo com morangos e obter algo como uma geleia de morango (que em geral sao eh mais leve e menos doce que as geleias comerciais - embora voce possa fazer ela doce se assim voce quiser). Ao inves de adicionar agua, voce pode fazer um bule de cha do seu cha preferido (algo como Earl Grey, por exemplo) e adicionar ele a mistura ao inves de agua. No final, voce pode adicionar canela ou coco ralado, ... Ou entao, voce pode colocar um pouco de brandy, contreau ou whiskey. E por aih vai.

Nao que eu queira transformar cozinha em Engenharia de Software, mas outra excelente feature eh que ela funciona como um otimo componente para outras receitas (eu sou a favor de livros de receita orientados a objeto). O que eu testei (com bastante sucesso, se a modestia me permite) foi misturar o doce de banana acima a massa de brigadeiro. Isso tecnicamente nao precisa de muitas explicacoes - indo no Google voce encontra diversas receitas de brigadeiro. Entao eu poderia dizer, pegue uma delas e na hora de colocar chocolate, coloque metade do chocolate e uma quantidade de doce de banana. Mas nao vou simplesmente dizer isso, porque brigadeiro sendo facil, eh uma arte que deve ser levada a perfeicao. Eh como bolo de chocolate ou cafezinho. Qualquer lugar voce encontra e qualquer um sabe fazer. Mas fazer bem feito, eh outra historia. O mesmo acontece com filmes/historias romanticas - tem tantos por aih que eh dificil voce ver um que pareca diferente. Mas voltemos ao brigadeiro. Antes da receita alguns comentarios:

1. Manteiga: eh provavelmente o ingrediente mais importante e eh o que em geral decide entre o sucesso e o fracasso dos brigadeiros e das sobremesas em geral. Jah me explicaram que o segredo de qualquer boa sobremesa sao quantidades ridiculamente altas de manteiga. Se isso fosse um texto jornalistico, eu apontaria para uma pesquisa de Harvard sobre a satisfacao das pessoas com cookies em relacao a quantidade de manteiga que eles levam - e a surpreendente conclusao eh que ela soh aumenta com a manteiga, ateh o ponto que os cookies comecam a nao conseguir ficar mais solidos e derretem na mao das pessoas. A ideia principal eh dobrar a quantidade de manteiga das receitas convencionais (e absolutamente NUNCA usar margarina. soh manteiga sem sal)

A pessoa que me ensinou esse truque faz otimas sobremesas e tem a cara-de-pau de chegar nos lugares e dizer que o segredo eh colocar uma quantidade minima de manteiga. Mas piadas a parte, eu em geral revelo o segredo (como eu estou fazendo aqui no blog) e as pessoas dizem que nao eh saudavel. Concordo, mas quando eu faco, eh em geral porque vou receber mais visitas em casa - entao eu nao como sozinho - e eu nao faco sempre. Eu acho que usar muito manteiga em ocasioes especiais (ou uma/algumas vez por semana) eh mais que justificado. Fazemos isso em varios aspectos da vida: se podemos nos comportar diferente na nossa vida privada e em publico, ou agir diferente na familia e no trabalho, por que nao usar mais manteiga numas ocasioes e pouca em outras?

2. (Contra o) Granulado: Eu sou em geral contra o granulado (o colorido entao me dah calafrios). Acho que estraga as sobremesas, nao tem gosto de nada (em geral eh feito de chocolate ruim), nao tem uma textura interessante e nem eh bonito. Depois do meu rant, eu realmente prefiro que os brigadeiros no final sejam passados soh em acucar. Eu jah vi alternativas que parecem interessantes, como pedacinhos de castanha, pistache ou coco ralado. Mas nunca tentei nenhuma delas, sempre acabo usando soh acucar.

Bom, como eu faco brigadeiro eh da seguinte forma:

Mistura numa panela: duas latas de Leite Moça (leite condensado), 50-60g de manteiga (basicamente veja o tamanho do pacote e corta de acordo - mas corta em varios pedacos e coloca na panela pra derreter mais rapido) e chocolate em po Aqui nao tem nenhuma regra, pode ser o que voce quiser e na quantidade que voce quiser. Nescau funciona. Qualquer marca moderadamente decente de chocolate funciona. Essa parte eh a menos importante. Voce regula a quantidade de acordo com quao denso de chocolate voce vai querer ele. Lembra que o leite condensado jah eh bem doce e tem um gosto bom por si so. Deixe o fogo baixo (eh ok deixar o fogo mais alto por alguns minutos enquanto ainda estah frio, mas depois abaixe) e IMPORTANTE: mexa sempre ateh ele desgrudar do fundo da panela. [Se vc quiser fazer algo diferente, nesse ponto voce pode adicionar mel, Maple Syrup, geleia de morango ou doce de banana - mas nao muito.] O truque eh pegar uma colher de pau e ir de um lado ao outro da panela (seguindo o diametro) e ver se jah desgrudou do fundo. Quando estiver

Terminada essa parte, coloque tudo num prato raso pra ir esfriando e depois eh soh enrolar. Em geral voce derrete um pouco de manteiga, passa na sua mao, faz uma bolinha de chocolate e passa no acucar. (Deve ser facil achar videos no YouTube explicando como se faz isso).

Btw, sempre aceito sugestao de sobremesas. E let me know se alguem aih tentar algo parecido seguindo/inspirado na discussao acima.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Kindle e Sao Bartolomeu

Eu recentemente comprei um Kindle DX e minhas razoes foram essencialmente aquelas do xkcd comic:
Ter acesso a Wikipedia de qualquer lugar do mundo eh tentador, fora que eu sempre achei ler pdfs na tela do meu computador desconfortavel, ainda que meu computador seja um tablet - e no Kindle isso ficou bem mais agradavel. Outro grande problema que sempre me dificultou ler classicos foi o typesetting horrivel das edicoes antigas (e das edicoes modernas baratas) e para alguns livros o fato de serem grandes demais. Tudo isso se resolve facilmente com o Kindle - ler Anna Karenina tem sido uma experiencia agradavel nele. Eh otimo que tanto o Projeto Gutenberg quanto o Google Books tenham varios livros jah em formato Kindle ou em pdf (com o otimo typesetting nativo do Kindle). Mas o que eu gostaria de falar mesmo eh sobre a internet 3G de graca no mundo todo que vem com o Kindle. Eu testei nos EUA logo que eu recebi e de fato funcionava muito bem - o que eh menos interessante, porque aqui eu tenho sempre um computador com internet por perto, um celular com internet que faz tethering (um Android Nexus One, do qual eu realmente gosto) - mas viajando em geralmente estou longe de ter essas coisas. Achar wifi nao eh tao facil em outros lugares como eh nos EUA (se bem que no Rio tem sido mais ou menos facil).

Bom, eu estava ansioso por testar a internet 3G do Kindle na Espanha e no Marrocos. Mesmo assim, eu sabia que seria uma mixed blessing: uma das vantagens de viajar eh desintoxicar do meu vicio de chegar email toda hora. Logo eu percebi que o quer achei que seria uma mixed blessing era uma complete blessing. Eu nao conseguia acessar o GMail pelo 3G na Espanha! Soh alguns sites pre-selecionados pelo Kindle, como Wikipedia, Wikitravel, Yelp, Weather Channel, Lonely Channel, ... eram possiveis. Ou seja, a distracao estava eliminada e a parte boa ainda estava lah.

No aeroporto, enquanto eu esperava pelas minhas malas, eu li um pouco sobre a Guerra Civil Espanhola, assim como eu li sobre a Primeira Crise Marroquina ou o Incidente de Tangier, que era um dos mais famosos eventos pre-primeira-guerra-mundial - no ferry de Tarifa para Tangier.

Mas a minha primeira experiencia interessante com ele foi na Catedral da Almudena - a bela igreja na frente do Palacio Real em Madrid. A catedral estava fechada, mas a cupula e o museu estavam abertos - e foi uma experiencia fascinante. A minha cultura artisitica e minha cultura religiosa deixam muito a desejar - e sempre acho que estou perdendo alguma coisa. Subindo para a cupula havia uma varanda com uma vista para o Palacio Real e quatro estatuas:


O fato de estarem numa igreja sugerem que sejam santos e sendo quatro e segurando um livro cada um sugere que sejam os quatro santos evangelistas: Sao Mateus, Sao Marcos, Sao Lucas e Sao Joao. Mas qual eh qual? Outro detalhe interessante eh que cada um dos santos tem um animal com eles: uma aguia, um boi, um leao e um anjo. Isso me lembrou um quadro "Os quatro evangelistas" de Rubens que eu vi uma vez no Museu de Arte de Princeton:


 onde apareciam denovo os quatro santos com os quatro animais. O Kindle entra nesse ponto: eu consegui ler o artigo da Wikipedia The Evangelists na hora e entender a associacao dos santos com as quatro criaturas que carregam o trono de Deus (de acordo como Ezequiel e com o Livro do Apocalipse) ao mesmo tempo que representam diferentes caracteristicas dos livros (mais detalhes no artigo da Wikipedia). Se voce estah curioso, a associacao eh Sao Mateus (anjo), Sao Marcos (leao), Sao Lucas (boi), Sao Joao (aguia). Ok, uma forma facil de lah na Igreja ter descoberto quem era quem eh que as estatuas apareciam na mesma ordem dos livros - eu percebi depois de ler a Wikipedia e ver quem era quem, mas in restrospect era bem obvio e eu poderia ter tirado a associacao disso.

Bom, seguimos pelo museu da Almudena, com as varias vestes dos cardeais de Madrid, diversas cenas da Coroacao de Nossa Senhora, tapecarias de Adao e Eva no Paraiso, e assim por diante... O fim do museu dah na cupula da Catedral e essa eh a mais interessante, porque existem doze estatuas. Essa eh facil de matar quem sao: os doze apostolos - na verdade quase: nessas cenas em geral nao se representa Judas Iscariotis, e normalmente ele eh substituido por Sao Matias. Mas ok, a proxima brincadeira com o auxilio da Wikipedia era achar quem era quem. Sao Pedro costuma ser o mais facil, porque ele sempre eh representado segurando as chaves do ceu. Sao Mateus tambem eh facil, porque ele aparece segurando um livro - e ele eh o unico na intersecao dos santos evangelistas com os apostolos. Ok, isso eh mais ou menos verdade, eh discutido se o Sao Joao apostolo eh o mesmo Sao Joao evangelista, mas acho que a maioria das pessoas acha que a resposta eh nao. De toda forma, Sao Joao eh normalmente representado segurando um calice de vinho com uma serpente (ou um dragao pequenininho) dentro como por exemplo aqui. O calice vem de uma lenda onde Sao Joao teria recebido um calice de vinho envenenado, e apos abencoar ele, o veneno teria desparecido (ou teria virado uma serpente e saido do calice). Outro pessoa facil de reconhecer era Sao Tome, que estava numa posicao tentando tocar as chagas de Cristo (outro detalhe interessante eh que Thomas significava gemeo - twin - porque Sao Tome se parecia muito com Cristo - embora isso nao seja lah muito representado nas obras de arte). Mas a que mais me surpreendeu foi esse:


Uma das estatuas aparece segurando uma pele humana e segurando uma faca. Se trata de Sao Bartolomeu, um dos apostolos dos quais sabemos muito pouco - pouco se fala dele nos evangelhos, e de fato ele tem nomes diferentes nos seguintes evangelhos, e de acordo com a tradicao, ele teria levado o evangelho a India, ou talvez a Etiopia... Mas o que representa a estatua ? Essa foi minha segunda feliz incursao pela Wikipedia: a representacao de Sao Bartolomeu segurando uma faca e uma pele humana nao eh incomum. Por exemplo, ela acontece tambem no Juizo Final de Michelangelo. E se trata da propria pele do santo. Uma explicacao eh a lenda do seu martirio na Turquia (ou talvez na Armenia), onde teriam cortado sua pele e decepado sua cabeca. Outra explicacao eh que seu corpo, que era mantido em Lipari na Sicilia, teria os ossos misteriosamente desaparecidos restando soh sua pele e sua cabeca.

De toda forma, uma brincadeira interessante visitando museus era tentar reconhecer os santos antes de ler o nome da obra, o que era bastante interessante. Outra vez que com sucesso aprendi algo com o Kindle foi visitando o Convento de la Concepcion, me Toledo, que aloja um El Greco famoso sobre a imaculada conceicao de Nossa Senhora. Quando entrei lah me lembrava vagamente de alguem ter me dito que contrario ao que a maioria das pessoas acreditava, a Imaculada Conceicao nao tinha a ver com a concepcao de Jesus mas com o fato do Espirito Santo ter protegido Nossa Senhora do pecado original. A conexao 3G mundial do Kindle novamente esclareceu tudo. De fato - como era indicado por Jesus nao aparecer no painel do El Greco - de fato a Imaculada Conceicao se refere a Nossa Senhora ter nascido sem pecado. O artigo da Wikipedia que discute os detalhes eh esse aqui.

Minha proxima duvida aconteceu no Marocos. Eu procurei mas nao consegui encontrar nada que me explicasse o que sao as quatro esferas no topo da Koutoubia:
Eu lembro de ter ouvido uma explicacao sobre isso em Granada, mas ela me escapa no momento. E lembro de ter visto os mesmos simbolos e varios lugares do sul da Espanha, como essa mesquita em Essaouira e na Giralda em Sevilla, alem de uma igreja em Granada.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Djemaa el Fna

Djemaa el Fna sempre foi meu sonho. E eu poderia comecar descrevendo como eu sempre imaginei ela ou como eu gostei de ler as Vozes de Marrakesh. Mas eu vou falar como ela realmente eh, o que eh ainda mais impressionante. Eu acabei de voltar do Marrocos, ou melhor, da minha viagem de 10 dias pos-EC-deadline com a minha namorada. Eu tenho varias outras coisas para escrever, como por exemplo sobre a Catedral da Almudena - mas vou deixar para depois.

A praca fica no meio da Medina em Marrakesh. A Medina eh enorme, confusa mas incrivelmente interessante. Eh uma concentracao de comercio (os souks) de deixar o Sahara do Rio com vergonha onde se encontra de tudo: potes coloridos, lampadas de henna, elefantes de madeira, lencos, vestidos, sapatos, bolsas, ervas, remedios, doces... um do lado do outro e se repetindo por muitas e muitas vezes. Eu me divirto muito comprando - na verdade, me interessava mais pelo processo de comprar algo do que pelos objetos em si e era uma bela licao pratica de Game Theory. As compras de davam pela barganha, basicamente: viravam para Carol e mostravam para ela lencos, tapetes, lampadas... e depois quando ela parecia gostar de algo (sim, eles falavam todas as linguas que voce quisesse - eu vi eles negociando em espanhol, frances, ingles, italiano, alemao...) e entao viravam para mim e perguntavam quanto eu queria pagar. Ou me davam um preco. A minha estrategia era mais ou menos a seguinte: eu tentava pedir a metade do preco e entao comecavamos a discutir: ele dizendo que meu preco era um absurdo, eu dizendo que nao pagava. Algumas vezes ele ia abaixando e eu ia cedendo um pouco e o preco ficava algo como 2/3 do original. Um bom truque eh quando a barganha fica empacada e voce ve que o preco nao vai abaixar, ao inves de tentar diminuir o preco, colocar mais um objeto na barganha. Algo como "por esse preco eu levo dois ou, soh se vc colocar esse outro lenco". Isso funciona surpreendentemente bem. Outro truque era virar pra Carol e dizer: "infelizmente nao dah" e dizer pro cara "obrigado, mas vamos embora". Aconteceu uma vez que realmente queriamos comprar uma coisa que era 1400 dinares - o que era um absurdo. No fim, depois de sair, o cara veio atras da gente dizendo que negociava e tal... no fim conseguimos por 350. Uma coisa legal eh que as coisas aparecem em varios lugares, entao mesmo que uma barganha nao de certo, voce sempre pode ir no comerciante do lado e tentar fazer um negocio.

Os souks sao impressionantes, mas nao se compara a Djemaa el Fna. No meio da Medina existe um grande espaco aberto, que eh a principal praca de Marrakesh - sim, eh um grande espaco de chao, sem arvores, ou construcoes ou bancos - mas eh talvez o lugar mais impressionante da Terra. Se existe algum lugar magico na Terra, esse lugar eh a Djemaa el Fna - eu eu nao fico com vergonha de dizer quando arrepiado eu ficava sempre que entrava lah.

Num canto estah um homem sentado num tapete/toalha e varios instrumentos de metal no tapete. Um prato cheio de dentes. E sim, pessoas vem para ter seus dentes arrancados no meio da praca. Mais adiante um homem rodeado de macacos-sem-rabo e mais um pouco adiante encantadores de serpentes. Sim, isso existe de verdade:


Um pouco mais adiante estava um homem segurando um sapo morto na mao e varios frascos - enquanto ele segurava ao sapo, ele gritava algo em arabe, e nao era claro se ele estava adivinhando o futuro nas entranhas do animal ou se era uma licao de anatomia anfibia. Homens faziam magica, seguravam fogo nas maos e outros simplesmente contavam historias e esses atraiam multidoes - quase todos de marroquinos ouvindo o que eles diziam. Era arabe, mas mesmo sem entender era fascinante acompanhar, como as pecas em Grammelot. Haviam mulheres sentadas em banquinhos fazendo tatuagens de henna e outras tantas lendo a sua sorte, jogando cartas ou decifrando as estrelas. Isso sem contar com as barraquinhas de frutas que eram espremidas na hora e toda a fumaca e cheiro de comida vindo de varias barracas e havia de tudo: de tajine a ostras.

Eu poderia falar de muita coisa sobre o Marrocos, como da travessia de Tarifa para Tangier, do Tajine, dos precos no mercado ou dos riads, mas acho que nada mais merece estar num post com a Djemaa el Fna.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Valor do Dinheiro (e loterias)

Voce pode estar pensando pelo titulo e pelo ultimo post que esse se tornou um blog de economia, da mesma forma que a algum tempo atras, parecia que esse blog ia se tornar um blog de comida. Mesmo isso nao sendo verdade, eu gostaria de falar um pouco sobre dinheiro. Como eu jah disse alguma vezes, eu adoro livros de economia pop, como Freakonomics, SuperFreakonomics, Predictably Irrational, e outros que nao se enquadram exatamente em economia pop, mas tem um sabor semelhante, como Blink. Eu fiquei feliz em descobri que o Freakonomics tem uma webradio: FreakonomicsRadio. Alias, baixei todos os podcasts deles e fiquei ouvindo na viagem de aviao para o Brasil - o que tornou a viagem bem mais agradavel - isso, junto com Angry Birds. Eu gostei bastante e estou aprendendo bastante com eles (estou me referindo ao Freakonomics Radio e nao ao Angry Birds).

Um episodio duplo eh sobre loterias, ou melhor, sobre a ideia do No-Lose Lottery. A ideia em linhas gerais eh bem interessante: um grande problema nos EUA eh que as pessoas nao juntam dinheiro o que torna elas muito vulneraveis a emergencias. Outro problema de varios paises eh o fato de muitas pessoas permanecerem unbanked, ou seja, nao usam bancos para guardar seu dinheiro. Isso faz com que menos dinheiro esteja no mercado, uma economia mais fria e denovo, as pessoas acham mais dificil juntar. Uma solucao que ele discute eh "lottery savings accounts". As pessoas nao querem colocar o seu dinheiro numa poupanca por exemplo, porque no final do mes elas ganham um rendimento infimo com aquilo - melhor entao deixar embaixo do colchao. Por outro lado, elas ficam felizes em comprar bilhetes de loteria que tem retorno medio muito abaixo do ridiculo retorno das poupancas. Por que as pessoas fazem isso? Elas sao irracionais? Ele discute bastante isso, inclusive apresenta a ideia de que a loteria seja um Fools Tax, ou seja, um imposto extra pago somente pelos idiotas. Os podcasts sao otimos e discutem como alguns paises implementaram poupancas onde em vez de voce ganhar o retorno infimo da poupanca, voce junta o retorno de todo mundo e sorteia para uma pessoas - que ganha a bolada. Dessa forma, a poupanca funciona como um bilhete de loteria e voce nao paga nada pelo bilhete (charada: como isso funciona? como voce estah na verdade "pagando" pelo bilhete?)

Mas eu vou desviar um pouco do tema e falar de outra coisa, mas ainda se mantendo a mesma ideia de: por que as pessoas jogam na loteria? (O que alias, eh um tema interessante no ano-novo por causa da Mega Sena da Virada. Se voce calcular p S - b onde:
  • S = premio da loteria
  • p = probabilidade de ganhar
  • b = preco do bilhete
voce vai perceber que o valor eh negativo - ou seja, eh um mau negocio? Mais ou menos: muitos respondem que comprando um bilhete de loteria voce estah na verdade comprando um sonho - ou seja, comprando uma possibilidade de melhorar de vida, uma esperanca e tal... e que isso vale o que voce paga. Ao inves de adicionar mais um termo sonho na expressao acima, vamos tentar fazer isso ficar um pouco mais formal. Para isso, facamos um pequeno experimento:

Experimento 1: O que voce prefere, ganhar 5 reais com certeza ou 10 reais com probabilidade 1/2 (eu jogo uma moeda pro ar, e se cair cara, voce ganha 10 reais, se for coroa, voce nao ganha nada).

Experimento 2: O que voce prefere, ganhar 1 centavo com certeza ou ganhar um milhao de reais com probabilidade um sobre cem milhoes?

Bom, eu respondi que prefiro a certeza no experimento 1 e a incerteza no experimento 2 - vou supor que voce leitor escolheu o mesmo que eu. A questao eh que nos nao estamos tentando maximizar quanto dinheiro temos, mas a nossa felicidade com o dinheiro. No que isso eh diferente?

Bom, vamos definir uma funcao H(.) que diz quao feliz voce estah, digamos que H($1) eh a felcidade que voce extrai de 1 real (comprar um pao na padaria ou tomar um Coca-Cola), H($2000) eh a felcidade que voce extrai de 2000 reais (fazer uma viagem, trocar o guarda-roupa ou um iPad) e H($1 milhao) eh a felicidade que voce extrai de 1 milhao (algo como montar a propria empresa, viajar o mundo inteiro varias vezes, comprar aquele apartamento que voce sempre sonhou e tal...). Como a funcao se parece? Claramente quanto mais dinheiro voce tem, mais felicidade voce pode extrair dele. [ok, ok, ok... tem varias coisas que voce pode argumentar do contrario, mas vamos ignorar isso por um momento... se voce for desapegado a bens materiais, voce pode pensar que quanto mais dinheiro voce tem, mais dinheiro voce pode doar para a caridade, fazer outras pessoas felizes e tal... ou seja: vamos super que quanto mais dinheiro, melhor]. Mas como isso se parece. A primeira ideia eh que seria algo assim?


Se acreditamos nisso, entao nos dois experimentos acima, as duas opcoes deveriam ser completamente identicas, o que nao eh verdade. Em geral entre 10 reais com certeza e 100 reais com 1/10 chance, eu prefiro a primeira opcao. E isso eh o que diz o experimento 1. Formulando em termos da nossa funcao de felicidade H(.), temos o seguinte:
E isso indica que a funcao eh algo assim:

Matematicamente significa que a funcao eh concava. A funcao de felicidade acima eh caracteristica de pessoas aversas ao risco, ou seja, que preferem a certeza do que a incerteza. mas isso na explica o experimento 2 e nao explica as pessoas que saltam de paraquedas e que fazem bugee-jump. Essas em geral sao risk-seeking. O mesmo em relacao as pessoas que compram bilhetes de loteria. O experimento 2 eh explicado pela seguinte curva de felicidade, tipica das pessoas que gostam de riscos:

Na pratica, nos nao somos completamente risk-seeking ou risk-averse, mas uma combinacao dos dois. Dependendo do valor, somos mais ou menos propensos a aceitar riscos. Por exemplo, os experimentos acima parecem indicar algo assim:
Concava em determinadas regioes e convexa em outras: como ela se parece exatamente, depende de cada um. Para pessoas com a curva convexa o suficiente vale a pena tomar certos riscos.